Nos últimos tempos, o Brasil passou a ser definido pela maior parte da população argentina como exemplo a ser seguido. Os motivos vão desde a baixa na auto-estima dos argentinos, provocada pela crise política e econômica que atingiu o país em 2001, até a aprovação às medidas adotadas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A nova visão dos argentinos em relação ao vizinho pode ser constatada nas conversas com taxistas, comerciantes e donas de casa. No entanto, ainda não existem pesquisas que comprovem o fenômeno, confirmado por dez entre dez analistas. Desde a eleição de Lula, e do ínício da exibição na TV local da novela O Clone, os jornais argentinos aumentaram de maneira considerável a cobertura aos fatos que ocorrem no Brasil. - A imagem do Brasil melhora aqui a cada dia porque o presidente Lula está fazendo as coisas certas e a prova é a valorização dos títulos da dívida pública do país e a queda do risco país, evidentes sinais de confiança do mundo no governo brasileiro - argumenta o economista e jornalista do jornal El Cronista, Daniel Naszewski. - Lula realiza um progressismo com seriedade, olhando pra frente, permitindo que o país volte a crescer e que a sociedade seja beneficiada. Infelizmente, aqui na Argentina, ainda tem muita gente que acha que o progressismo é aquele dos anos 70 - afirma. Para Naszewski, a admiração dos argentinos pelo presidente brasileiro foi o que levou o presidenciável Néstor Kirchner a reunir-se com ele. A poucos dias do segundo turno das eleições, no dia 18, o candidato queria, de acordo com o analista econômico, pedir conselhos a Lula. - Kirchner quer ser um Lula 2, mas tenho minhas dúvidas que isto seja possível. O jornalista Carlos Pagni, um dos principais editores do jornal Ambito Financeiro, afirma que o Brasil se popularizou como nunca na Argentina nos últimos tempos. Na opinião de Pagni, a Argentina mudou primeiro a visão sobre si mesmo após o fim da conversibilidade, quando o peso era atrelado ao dólar. Dentro deste raciocínio, o jornalista acredita que a Argentina deixou de olhar para os Estados Unidos e passou a prestar mais atenção no país ao lado. - Além disso, hoje, não podemos jamais ficar indiferente ao fato de o Brasil ter um presidente como Lula. Ao contrário, devemos noticiar. Afinal, sua trajetória e medidas são atraentes para o leitor argentino, representam uma mudança regional e, sinceramente, tem até poder literário - diz Pagni. Os analistas políticos Rosendo Fraga, do Centro de Estudos União para a Nova Maioria, e Roberto Bacman, do Ceop, entendem que a rivalidade entre a Argentina e o Brasil começou a diminuir a partir da concretização do Mercosul. De acordo com Fraga e Bacman, esse processo foi intensificado com a desvalorização do peso - o que reduziu infinitamente o nível de desconfiança em relação às medidas econômicas do governo brasileiro. No fim dos anos 1990, as expectativas e especulações dos argentinos eram sobre quando o Brasil iria desvalorizar sua moeda. Na época, o tema era abordado quase como uma medida contra a economia argentina, cujo comércio temia ser prejudicado pela queda nos preços dos produtos brasileiros. Hoje, com moedas quase igualmente desvalorizadas e um Mercosul praticamente paralisado, a desconfiança se dissipou. Pelo menos, até aqui. Atualmente, é comum ouvir dos argentinos que o país deve intensificar a relação com o vizinho. O taxista Juan Tomillo entende que é hora de reforçar estes laços. - O Brasil vai bem e isso é bom para a Argentina. Nada impedirá que nossas disputas no futebol não sejam eternas, mas acredito que esse assunto vai ficar cada vez mais isolado. Também taxista, Fabián Gomez, ex-combatente da Guerra das Malvinas, elogia o "patriotismo" dos brasileiros, uma característica cada vez mais apreciada pelos argentinos. - Nosso país foi feito por imigrantes e ainda hoje nossa tendência é olhar para o lugar de onde vieram
Brasil vira 'exemplo' para argentinos
Nos últimos tempos, o Brasil passou a ser definido pela maior parte da população argentina como exemplo a ser seguido. Os motivos vão desde a baixa na auto-estima dos argentinos, provocada pela crise política e econômica que atingiu o país em 2001, até a aprovação às medidas adotadas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. (Leia Mais)
Sábado, 10 de Maio de 2003 às 08:20, por: CdB