Diretor de Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa, o major-brigadeiro-do-ar Jorge Cruz de Souza Mello afirmou, nesta quinta-feira, que o Brasil "não pode prescindir do uso da bomba cluster", também conhecida como arma de fragmentação. Esse tipo de bomba, ao ser lançado se subdivide em explosivos que podem atingir área equivalente a quatro campos de futebol e também alvos civis. O maior problema é quando essa submunição não explode no momento do lançamento, o que resulta em artefatos à deriva no solo, equivalentes a minas terrestres de pequeno alcance, mas que podem ocasionar mortes e mutilações em quem as tocar, como tem acontecido em maior número com crianças do Vietnam, Camboja, Líbano, Afeganistão, Sudão, Etiópia e outros.
A Organização das Nações Unidas (ONU) articula movimento internacional no sentido de proibir esse tipo de armamento, que é fabricado por 34 países, dentre os quais o Brasil. Mas, durante audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, da Câmara dos Deputados, o brigadeiro Jorge Cruz de Souza Mello defendeu o uso da bomba cluster, desde que "longe das populações de risco", e enfatizou que as Forças Armadas "têm consciência e responsabilidade daquilo que têm em mãos".
De acordo com o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), que convocou a audiência pública com o objetivo de chamar a atenção da sociedade para o uso do armamento, o Brasil está na contramão dos países vizinhos, que já se posicionaram pelo fim da bomba cluster, inclusive Chile e Argentina, que também a fabricam. Por isso, acha que "se existe uma demanda regional, o Brasil deveria se colocar à frente dela, e não contra ela".
Também participaram da audiência o chefe da Divisão de Desarmamento e Tecnologias Sensíveis do Itamaraty, Santiago Irazabal Mourão, e os representantes da sociedade civil Daniel Mack, do Instituto Sou da Paz, e Cristian Ricardo Wittmann, da Campanha Brasileira Contra as Minas Terrestres.
Wittmann ressaltou, inclusive, o aspecto contraditório do Brasil, que fala em nome da paz e dos direitos humanos nos fóruns internacionais, mas, em contrapartida, continua fabricando a bomba cluster e exportando-a para países que fazem guerra. Em especial no Oriente Médio. Sobre essa negociação também não há a menor transparência, segundo ele, ao que o representante do Ministério da Defesa afirmou que existem salvaguardas mundiais para garantir a reserva dessas operações.
Daniel Mack disse que a bomba cluster é uma arma "obsoleta tecnológica e moralmente" e acrescentou que "as Forças Armadas merecem receber equipamentos de melhor qualidade para a defesa nacional". Ele revelou que representantes de 108 países, signatários do Protocolo de Oslo (Noruega) contra o uso de minas terrestres, vão se reunir no próximo dia 4, em Viena, na Áustria, para tratar da questão, e mais uma vez o Brasil estará de fora, "à margem da discussão", e ficando cada vez mais isolado na defesa da bomba cluster, tanto na América Latina quanto no mundo.