A Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) aprovou requerimento do senador Pedro Simon (PMDB-RS), nesta quinta-feira, que prevê a tentativa de se fazer um encontro, ainda nesta semana, com o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, em visita oficial ao Brasil. A conversa deverá recair sobre a preocupação manifestada por Simon sobre a decisão anunciada pelo governo dos Estados Unidos de instalar seis bases norte-americanas na Colômbia, para combate ao narcotráfico. Simon disse que aprecia as ações do presidente dos EUA, Barack Obama, mas condenou essa intenção, que pareceu a ele "apenas uma preocupação unilateral (dos EUA) para que a droga colombiana não entre nos EUA e não uma preocupação genuína em ajudar a Colômbia".
O senador gaúcho defendeu outras formas de participação dos países que querem auxiliar no combate do tráfico de drogas, inclusive por parte das nações latino-americanas identificadas com os problemas da Colômbia. Para o senador Heráclito Fortes (DEM-PI), a política em relação a essas questões deve ser padronizada pelo Itamaraty para orientar a posição do Brasil em relação a outros episódios, como o anúncio de que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, está fazendo acordos militares com a Rússia.
Também os senadores Geraldo Mesquita Júnior (PMDB-AC) e Cristovam Buarque (PDT-DF) concordaram com os receios de Simon e também defenderam que ações que resultem em interferência em países latinos americanos tenham o exame e a participação de países da própria América Latina. Já o presidente da CRE, Eduardo Azeredo (PSDB), afirmou que, em conversa mantida ontem com a subsecretária de Defesa norte-americana, Michele Flournoy, também em visita ao Brasil, foi informado de que o que ocorre é apenas um incremento de bases já existentes e que a medida é coerente com acordo bilateral entre EUA e Colômbia, em curso há mais de dez anos.
Artigo de Fidel
Na véspera, o ex-presidente cubano Fidel Castro disse, em artigo publicado em um site que a presença militar norte-americana constitui uma "dor de cabeça" para a América Latina. O artigo surge em meio a uma grave crise entre Venezuela e Colômbia por causa de um acordo militar em negociação entre Bogotá e Washington, que autoriza unidades militares dos EUA a usarem bases colombianas na luta contra o narcotráfico e guerrilhas de esquerda.
O governo esquerdista da Venezuela, aliado de Cuba, congelou suas relações com a Colômbia por causa da suposta ameaça contida na presença militar norte-americana.
"A presença de tão poderoso império, que em todos os continentes e oceanos dispõe de bases militares, porta-aviões e submarinos nucleares, navios de guerra modernos e aviões de combate sofisticados (...), constitui a mais importante dor de cabeça de qualquer governo, seja de esquerda, centro ou direita, aliado ou não dos Estados Unidos."
No artigo intitulado "Sete punhais no coração da América", Fidel, que completa 83 anos neste mês, diz que "os governantes dos países da Unasul, Mercosul, Grupo do Rio e outros não podem deixar de analisar a justíssima pergunta venezuelana: que sentido têm as bases militares e navais que os Estados Unidos querem estabelecer ao redor da Venezuela e no coração da América do Sul?"
"Seria um erro grave pensar que a ameaça é só contra a Venezuela; está dirigida a todos os países do sul do continente. Ninguém poderá eludir o tema", afirmou ele no artigo publicado no site www.cubadebate.cu.
Cuba e Estados Unidos são inimigos ideológicos desde pouco depois da revolução de 1959, encabeçada por Fidel e que derrubou o ditador Fulgencio Batista.
"O problema, para os que somos vizinhos (dos EUA), não é que lá se fale outro idioma e seja uma nação diferente (...). O dramático é o sistema que ali se desenvolveu e se impôs a todos", acrescentou o ex-dirigente, afastado definitivamente do poder desde fevereiro de 2008.
Diversos governos esquerdistas da América Latina, dos mais moderados aos mais radicais, criticaram o estreitamento da cooperação militar entre Colômbia e Estados Unidos.