O governo brasileiro informou nesta segunda-feira ser improvável a cooperação com a Venezuela em energia nuclear caso algum programa dessa natureza envolva o Irã, conforme sugeriu o presidente venezuelano, Hugo Chávez, no fim de semana.
Um porta-voz do Ministério de Ciência e Tecnologia afirmou que o Brasil ainda não recebeu um pedido formal do país vizinho para trabalhar em projetos de energia nuclear.
- Tendo em vista que, segundo Chávez, a questão de parceria envolveria o Irã, isto torna temerário o acordo - disse o porta-voz.
- O Brasil não tem interesse em cooperar com países que não cumprem os acordos e que não estão sob fiscalização por autoridades competentes - afirmou.
O presidente venezuelano, crítico dos Estados Unidos e aliado de Cuba, disse no domingo que seu governo está interessado em energia nuclear e que pode iniciar conversas com parceiros iranianos para estudar possíveis projetos atômicos.
Chávez afirmou que a Venezuela e outros países latino-americanos, principalmente Brasil e Argentina, podem desenvolver energia nuclear como fonte alternativa de energia com fins pacíficos.
Ele apoiou o Irã, classificado por Washington como parte do "eixo do mal", nas divergências sobre a finalidade do programa nuclear do país. Autoridades norte-americanas acusam o Irã de trabalhar secretamente para produzir armas nucleares, mas Teerã diz que seu programa nuclear tem como finalidade geração de energia para uso civil.
O presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear, Edson Kuramoto, afirmou que qualquer decisão sobre cooperação dependeria do governo brasileiro, e não da indústria, e que a proposta ainda é muito vaga.
Kuramoto também declarou que a Venezuela está bastante atrasada em relação ao Brasil na pesquisa de energia nuclear, o que significa que o país gostaria de comprar tecnologia em vez de cooperar completamente. Para ele, o país vizinho demoraria anos, talvez décadas, para desenvolver sua própria tecnologia.
- O Brasil tem investido na área nos últimos 30 anos, e a Argentina, aproximadamente o mesmo tempo. De acordo com as informações que temos, a pesquisa na Venezuela é muito pouco desenvolvida - disse à Reuters.
Kuramoto afirmou desconhecer a existência de reservas de urânio (combustível das usinas nucleares) na Venezuela, mas não excluiu a possibilidade delas existirem, já que o Brasil descobriu urânio no Estado do Pará, não muito longe da fronteira com o país vizinho.
No ano passado, o Brasil lançou sua própria planta de enriquecimento de urânio, o que colocou o país em um grupo de elite de nações que possuem capacidade nuclear de amplo alcance, desde a mineração à fabricação de combustível.
A inauguração da planta se deu um ano depois de duras conversas sobre inspeções internacionais às instalações nucleares brasileiras. O Brasil, que opera dois reatores, se esforçou para proteger o conhecimento tecnológico na área. A Constituição brasileira proíbe pesquisas para fabricação de armas nucleares.
Brasil mostra cautela sobre cooperação nuclear com Venezuela
Segunda, 23 de Maio de 2005 às 13:12, por: CdB