À parte o resultado exuberante da partida, Brasil 5 x Chile 0, quatro gols registrados antes mesmo dos trinta minutos do desafio, à parte a classificação antecipada para a próxima Copa na Alemanha, o público presente ao Estádio Mané Garrincha de Brasília, os espectadores que viram o duelo pela TV, atestaram uma verdade absoluta, crucial: Kaká e Robinho não podem ficar, em hipótese nenhuma, fora do time titular de Carlos Alberto Parreira e do seu mentor, Mário Jorge Lobo Zagallo.
Não importam o sistema e a tática. Mais valem a graça, a agilidade, a leveza e a criatividade que Robinho e Kaká impõem, decisivamente, ao jogo do Brasil. Kaká bateu o escanteio que o zagueiro Juan aproveitou, de cabeça, 1 x 0. Numa movimentação espetacular, que envolveu, também, Adriano, Kaká e Ronaldo Fenômeno, Robinho fez 2 x 0. Daí, Robinho passou a Adriano, que humilhou o Chile, com um gol típico, 3 x 0, chute cruzado, de esquerda. E o mesmo Adriano desenhou de testada os 4 x 0.
O desalento de Nélson Acosta, o emudecido e cabisbaixo treinador do elenco do Chile, igualmente serviu como aval para a tal da verdade absoluta.
Quando o Brasil junta, na sua ofensiva, quatro ou cinco craques que nenhuma outra nação do planeta possui, não é o seu meio-de-campo que se desequilibra. Efetivamente, é a preocupação do rival com a categoria de Kaká, Robinho & Cia., que detona a sua estratégia.
O adversário se obriga a manter seis, sete, até oito atletas, na sua proteção. Em Brasília, o Chile não ameaçou a meta de Dida em uma única oportunidade sequer.
Depois dos 4 x 0, e na etapa final, poupado o Fenômeno, com dores na coxa, Ricardinho em seu lugar, o Brasil ainda pôde exercitar simultaneamente as filosofias e os conceitos de Zagallo e de Parreira.
Respectivamente, a troca de passes à espera das ações do inimigo; e a pressão constante e incômoda na sua tentativa de saída de bola, Claro, o ritmo do Brasil naturalmente diminuiu. Mas, sem que o seu goleio sofresse um só susto.
Foi um duelo didático, o de Brasília, apesar da aparente fragilidade do Chile. Parreira testou Gilberto Silva, um volante bem mais fluente, no posto de Émerson.
E, quando o lateral Roberto Carlos se contundiu, numa dividida impiedosa com Fuentes, colocou Juninho Pernambucano em seu posto-- com o deslocamento de Zé Roberto ao seu flanco esquerdo de origem. Melhor, nos acréscimos, o furioso Adriano ampliaria, 5 x 0.
Significativo: claro, espontaneamente, já seguro, sossegadíssimo, o time do Brasil controlou o seu fôlego e os seus esforços. No entanto, realizou uma partida primorosa, em inúmeros quesitos.
O principal: Parreira compreendeu, enfim, que ostenta valores individuais capazes de detonarem qualquer rival no universo. Basta que esses valores se somem; que, aos poucos, se entrosem; e que aprendam a não descuidar, jamais, da determinação e da aplicação.
Que outra seleção da galáxia estabelece um resultado, com tanta folga e com tanto privilégio, logo no terço inaugural de um jogo?
Quanto ao futuro, paira mais uma alquimia na perspectiva de Parreira. Quem sairá do time ao voltar Ronaldinho Gaúcho, suspenso? Descartados os impecáveis e indispensáveis Robinho e Kaká, a agulha da bússola aponta na direção do Fenômeno e de Adriano.
Só que Adriano, artilheiro exemplar, exibe uma eficiência peculiar, monumental. Tirar Ronaldo? Não, Parreira, por favor, existem meses, até a Copa, para mais abusos. Que tal, no mesmo time, Robinho, Kaká, Gaúcho, Adriano e Ronaldo-- e mais, ainda, talvez, Ricardinho, um mestre nos lançamentos. Audácia, Parreira!