O sentimento dominante no Brasil é de que a Copa do Mundo acabou. A derrota para França foi como um banho de água fria no fervor nacional e comunitário que vinha embalando os sonhos dos brasileiros. No último jogo, a não existência de gols que tanto alegram a torcida e o baixo desempenho da equipe, sugerido por vários críticos e, também, apontado pelas pessoas comuns, mataram a euforia antes reinante.
Tudo mudou na tarde do último sábado. As torcidas tele-audientes nas ruas, nos empregos e em suas casas ficaram chocadas com a derrota, despertando da catarse do espetáculo midiático. A televisão transforma qualquer espaço em uma imensa arquibancada, recriando a sensação de se estar presente em algo que, neste caso, está ocorrendo em outro continente, fuso horário, cultura e economia. Os torcedores pulam, gritam, elogiam, xingam, soltam fogos, apitam e tocam estridentes cornetas como se estivessem próximos do que está ocorrendo nos estádios.
Na Copa, o Brasil transforma-se em uma nação pujante, orgulhosa de si mesma. Lá, os representantes dos brasileiros, vestidos com o uniforme canarinho, são mais parecidos com a maioria. Não foram eleitos de modo convencional. Mas, no essencial, foram escolhidos pelos seus reais talentos, demonstrados no Brasil e, em tempos de globalização, cada vez mais, no exterior. São bem jovens, quase todos negros, quase negros ou quase brancos. Trata-se de um momento de afirmação sócio-racial ímpar, onde o Brasil real encontra-se com o Brasil mítico de nossa cultura de tolerância, avessa à xenofobia e ao racismo mais declarado.
Parece que os torcedores vêem a bola em formato triangular, similar ao desenho geométrico de nosso mapa. O Brasil joga, metaforicamente, em campo, dialoga com o mundo, buscando dias melhores. As torcidas esquecem de seus males. Escapam dos seus mil e um problemas. Torcem pela vitória de seu país, bem como recebem o espetáculo midiático com imensa naturalidade. São, por isso, presas fáceis da publicidade e do consumo de tudo que a uma Copa do Mundo consegue vender.
As mídias captam este sentimento bastante grande e ainda o amplifica mais. Trata-se de um momento fugaz onde as diferenças e os problemas políticos, sociais, raciais e regionais são atenuados no plano simbólico. Nos dias de glória do Brasil na Copa, o noticiário televisivo e das demais mídias centram na mesma tecla: o importante é falar de futebol. Há um esforço concentrado de dialogar com o público, a partir do seu principal interesse. Os demais assuntos e problemas ficam semicongelados. Devem voltar, agora, com força total.
O assassinato da euforia sociomidiática anterior implica, em primeiro lugar, no exagero da crítica a todos os possíveis responsáveis pela derrota. Heróis de ontem viram vilões de hoje, em um claro exercício ciclotímico. Ninguém perdoa a derrota. Os 'culpados' são julgados e punidos exemplarmente. Talvez, isto seria muito bom se aplicado aos crimes e erros graves dos políticos e administradores. Obviamente, há elevadas doses de exagero nestas oscilações emocionais.
No Brasil, o futebol é um esporte nacional, motivo de júbilo desde a Copa de 1958. A modernidade brasileira vestiu a camisa amarela e viajou pelo mundo de chuteiras. Nossos guerreiros mais amados felizmente são pacíficos. Não usam armas ou punhos. Chutam a bola com os pés, com maestria e arte, conduzindo a felicidade geral das 'galeras'. Gosta-se tanto do esporte bretão, principalmente nas Copas do Mundo, talvez porque seja um dos poucos momentos em que existe a afirmação do país, enquanto uma nação.
Luís Carlos Lopes é professor do Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminese (UFF).
Rio de Janeiro, 06 de Abril de 2026
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