Rio de Janeiro, 10 de Maio de 2026

Brasil condiciona acordo de café a importadores

A indústria brasileira de processamento de café só vai participar do compromisso de não comprar grãos de baixa qualidade se o acordo for estendido à indústria dos países importadores.

Terça, 24 de Setembro de 2002 às 21:37, por: CdB

A indústria brasileira de processamento de café só vai participar do compromisso de não comprar grãos de baixa qualidade se o acordo for estendido à indústria dos países importadores. A posição será defendida pela delegação brasileira que participa esta semana da reunião do Conselho Internacional do Café, na Organização Internacional do Café (OIC), em Londres. "Concordamos com a redução, desde que os países importadores também participem", disse o diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), Mauro Moitinho Malta. "Ou todo mundo faz ou ninguém faz, porque as indústrias européias e americanas também são nossas concorrentes", afirmou. Redução da oferta O compromisso de não comprar café de baixa qualidade faz parte da resolução 407 da OIC, que entra em vigor em outubro. A intenção é reduzir o excesso de oferta de café no mercado, com o objetivo final de elevar os preços para o produtor. "O Brasil já teve uma experiência amarga com a retenção do estoque. Não estamos dispostos a fazer mais este sacrifício", afirma Malta. A OIC também acredita que a colocação de café de boa qualidade no mercado tende a elevar o consumo. Isso já aconteceu, de acordo com a entidade, em países que importam café de qualidade superior. O ministro conselheiro da Embaixada do Brasil em Londres, Piragibe Tarragô, um dos responsáveis por assuntos relacionados a café no governo brasileiro, diz que a proposta já foi apresentada nas reuniões do Comitê de Qualidade da OIC, na semana passada, e será levada ao Conselho esta semana. "Queremos que a indústria dos países importadores também colabore para elevar a qualidade do café no mercado", afirma Tarragô. Crise A 87ª reunião do Conselho Internacional do Café, que começou nesta terça e vai até sexta-feira, acontece no momento de pior crise do setor cafeeiro dos últimos anos. O excesso de oferta em relação ao consumo por três anos consecutivos derrubou os preços para o que alguns consideram o mais baixo dos últimos 30 anos. O preço da libra/peso caiu de US$ 0,47 em média em 2000/1 para US$ 0,45 neste ano. A queda é contínua nos últimos anos, e fica evidente quando se compara com o preço médio de US$ 1,15 pago pela safra de 1997/98. A queda do preço pago ao produtor faz com que muitos deles não tenham dinheiro para cuidar dos cafezais, o que leva a uma queda de qualidade que pode comprometer o futuro de todo o setor. "O aumento da qualidade pode resultar no aumento do consumo, mas o contrário também acontece", diz o presidente da Abics. Embora o consumo mundial tenha aumentando nos últimos anos, ele cresce num ritmo menor do que a produção. Os estoques mundiais caíram de 40,3 milhões de sacas na safra 2000/1 para 39,6 milhões de sacas em 2001/2. O problema, para os plantadores, é que aumentaram os estoques nas mãos dos países importadores - de 17,2 milhões de sacas na safra passada para 19,5 milhões nesta. Isso significa que eles ainda têm capacidade de manter os preços em baixa, reduzindo as compras. O Brasil é o maior produtor e exportador de café, e o maior consumidor entre os países produtores. O mercado brasileiro consumiu neste ano 13 milhões de sacas, 12,8% do consumo mundial e metade dos 26,6 milhões consumidos pelos países produtores. A experiência brasileira como país produtor-consumidor é citada como exemplo pela OIC, que quer incentivar o consumo doméstico de outros países produtores. A organização também quer levar os Estados Unidos, maior consumidor mundial em termos absolutos, de volta à organização. "Vamos votar uma proposta de convidar os Estados Unidos a voltar a integrar a OIC", diz o diretor-executivo da organização, Néstor Osorio.

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