Reinaldo Gargano, de 70 anos, é o presidente do Partido Socialista, o mesmo do novo presidente uruguaio, Tabaré Vázquez. Exilado na Espanha à época da ditadura, Gargano é senador pelo PS desde 1985. Ele será o novo chanceler do Uruguai, cargo também conhecido como ministro das Relações Exteriores, e concedeu uma entrevista exclusiva à Agência Brasil, alguns dias depois de encontrar-se com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no início de fevereiro, no Brasil.
Gargano falou sobre a política externa do novo governo, principalmente das relações com o Brasil, o caso do Haiti e a volta das relações com Cuba. Defendeu a integração sul-americana e comentou as eleições para o cargo de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), onde Brasil e Uruguai disputam a vaga. Pelo lado brasileiro concorre o embaixador Luis Felipe Seixas Corrêa, enquanto pelo Uruguai candidata-se Pérez del Castillo, que já foi presidente da instituição.
Apesar dos dois países integrarem o Mercosul, Castillo desagradou o Brasil (e os outros países do grupo chamado G-20) ao defender, na reunião ministerial da OMC em Cancún, em 2003, um texto base para negociações agrícolas que era contrário aos interesses de abertura dos mercados dos países desenvolvidos. Abaixo, os principais trechos da entrevista.
Agência Brasil: Como foi o encontro com Lula?
A entrevista foi muito cordial, fraternal. Eu e o presidente Lula nos conhecemos há 20 anos, nos encontramos em 2003 numa entrevista com o atual presidente eleito do Uruguai (Jorge Battle), mas agora fui visitá-lo a convite do chanceler Celso Amorim, para conversar sobre os problemas da transição do Mercosul.
Conversamos fundamentalmente sobre o tema da integração regional e sobre os esforços que temos que fazer para adotar essa integração regional com sólida infra-estrutura desde o ponto de vista econômico e a possibilidade de avançar rapidamente e consolidar o Mercosul, e de dar bases sólidas a essa comunidade sul-americana de nações que está nascendo agora. Os temas discutidos foram temas de integração. Um país com 180 milhões de habitantes como o Brasil e este pequeno país que é o Uruguai, com 3,5 milhões de habitantes, unem esforços para solidificar o processo de integração nacional.
Qual é a avaliação sobre os governos da América do Sul?
Criou-se um arco virtuoso, que começa no Chile e termina na Venezuela, passando pela Argentina e pelo Uruguai, quando tomar posse Tabaré Vázquez. Brasil com Lula e Chávez na Venezuela, com suas diferenças e peculiaridades, que na minha opinião é o correto, eles não têm porque mudar para que compartilhem ao mesmo tempo uma mesma idéia de construção de espaço econômico sul-americano.
Dizem que vivemos no continente mais rico do planeta: temos petróleo da Venezuela, do Brasil e da Argentina, gás da Bolívia e da Argentina. Com certeza, aqui também deve haver gás na plataforma continental ou petróleo. Temos alimentos capazes de alimentar não 400 milhões de habitantes, mas um bilhão de habitantes. Temos todos os minerais que queiram, temos pesca.
Dos três aqüíferos mais importantes do mundo, um se encontra nos territórios onde estão o Brasil, a Argentina e o Uruguai. Entretanto, temos 200 milhões de pobres, o que é uma espécie de insulto à inteligência e à dignidade humana. É a primeira vez que se apresenta a oportunidade de independência, de que exista um arco de governos progressistas que possam tentar cumprir uma tarefa juntos, unindo-se em uma identidade comum de progresso.
Não seria necessário também construir a união física da América do Sul?
Nisso estamos de acordo com o presidente Lula. Precisamos realizar obras de infra-estrutura básica, como unir o pacífico com o Atlântico através de três ou quatro vias terrestres ou férreas. Temos também que vincular o Caribe ou o Atlântico Norte com o Rio da Prata, através de via