Rio de Janeiro, 29 de Setembro de 2026

Bom dia, nossos queridos defuntos

Sexta, 05 de Junho de 2009 às 10:15, por: CdB

Ele chegou pelo correio, abri o enorme envelope e ele saiu, tomou lugar à mesa e com seus olhos matreiros de índio misturado com europeu e o sorriso grande de sempre, naquele rosto de pele morena, me saudou

- Buenos dias, hace tanto tiempo, y tu mujer y tus hijas ?

Falamos como dois amigos que não se viam há mais de vinte anos. Desconhecia tudo, meu divórcio, minhas novas filhas, que não vivia mais em Paris mas em Berna. Queria depois saber como eram as relações da Europa com a União Soviética, essa era sua preocupação naqueles anos em que marchávamos juntos pela rua de Poissy, Cardinal Lemoine et rue des Écoles.

- Pero no sabes nada, hombre ! Cecília não te contaba nada, ni Marie Claire ?

- Hace tiempos que no las veo...

Era verdade, quantos anos já tinham se passado daquele domingo longínquo, quando meu amigo Manuel Scorza, escritor peruano, que disputava com Vargas Llosa as simpatias de Estocolmo para um Nobel, não chegou a participar de uma conferência sobre literatura hispanoamericana, em Madri, e deixou de escrever.

Em cima de minha mesa, ao lado de uma xícara de café ainda fumegante, cinco livros empilhados de Manuel Scorza falavam comigo e eu retinha meus soluços na garganta. Estranha coincidência, era também um domingo quando Cecília Scorza me telefonou de Paris, pedindo para eu saber se era verdade ...

Conheci Scorza dentro do ônibus de funcionários da Abril. Tinha comprado o livro “Bom Dia para os Defuntos” de um mascate, se não me engano militar cassado pela ditadura, que vivia da venda de livros entre os funcionários e editores de revistas da Abril, na época junto à marginal. Enquanto o ônibus me levava ou me trazia da Paulista, onde vivia com mulher e filha num apartamento, logo depois visitado pelo Doi-Codi, eu lia empolgado aquela história, que poderia ser a do MST, mas era dos camponeses peruanos contra a Cerro de Pasco Corporation, numa época que ninguém poderia imaginar que o Cone Sul latinoamericano dominado por ditaduras militares seria substituído por democracias sociais-democratas.

O sucesso do livro fez com que logo surgisse nas páginas amarelas da Veja, uma entrevista com Scorza, pelo correspondente em Lima, com uma simples foto-retrato do escritor.

Logo depois, amedrontados, retornamos a Paris, tomando o avião no mesmo dia em que se celebrava na Sé o culto ecumênico em memória do meu antigo colega do Estadão, Vladimir Herzog, assassinado pelo mesmo Doi-Codi.

Tinha ficado longe o ônibus da Abril, a marginal e a Paulista. Longe também nossas famílias.

Mas numa tarde, de repente como num flash, caminhando pela Jussieu, pouco antes da Cardinal Lemoine, no Quartier Latin, alguém passa e me faz virar para trás. Ele também olha para trás, nos encaramos um segundo e ele me pergunta – “nos conocemos ?”

E minha memória localiza onde vira aquele rosto – a foto nas páginas amarelas, o escritor...

- Manuel Scorza ? perguntei. Era ele mesmo.

Ficamos amigos, sua filha estava na mesma escola maternal de minha filha, nos víamos. Lembro-me de Scorza comprando um terno num alfaiate da rue Monge, convidado que fora por Mitterrand para um encontro de escritores.

Víamos sempre Cecilia e Cecilita, a filha. Depois mudamos para a Suíça. Já haviam se divorciado. Scorza tinha vivido uma paixão com uma das mães da escola maternal, inspiradora do livro "A Dança Imóvel".

Naquele domingo, Cecília queria saber se era verdade. Telefonei para a Agência Telegráfica Suíça e me confirmaram. Scorza morrera carbonizado no aparelho da Avianca, que se incendiara ao descer em Madri. Ele e todos os outros passageiros. O fogo em lugar da água.

Chorei sim, como neste domingo, ao ouvir pela rádio a primeira notícia procedente de Paris, dando conta da tragédia com o A330. Toda vez que vou ao Brasil tenho esse temor ao sobrevoar o oceano. E imaginei a angústia desses passageiros naqueles instantes finais, que agora se sabe terem sido quatro longos minutos.

Coincidência, o correio acaba de me entregar os livros de Scorza emprestados há uns dez anos para um amigo, na Alemanha. Eu mesmo já não me lembrava. Foi como se Manuel Scorza tivesse soado a campaínha e aparecido para tomar um café comigo.

Releio a dedicatória, no livro lido em São Paulo - “en abril, en el cruce de los caminos”, e na História de Garabombo, o invisível – “nos iluminam las mismas luces y nos escurecen las mismas sombras”...

Por isso, se algum familiar dos passageiros do Airbus me ler, posso dar meu depoimento – hoje ao receber os livros de Scorza, a lembrança daqueles anos e sua presença foi quase real. O passado passou mas não deixou de existir. Não creio em sobrevivência mas na eterna presença, bom dia aos nossos queridos defuntos... porque todos nós os temos...

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