Rio de Janeiro, 10 de Maio de 2026

Bom dia crise!

Quinta, 08 de Setembro de 2005 às 07:07, por: CdB

Ao contrário do que parece, a crise política representa uma oportunidade extraordinária para a esquerda. Para isso, é preciso superar a narrativa do desencanto, olhando para a crise de frente e aprendendo suas lições. Em um mundo onde a morte avança, lutar pela vida é um dever inadiável.

Porto Alegre - "A luta continua, mas quase nunca no mesmo lugar ou em torno do mesmo significado ou valor" (1). A frase do jamaicano Stuart Hall, intelectual engajado nos debates sobre as dimensões político-culturais da globalização, pode servir de ponto de partida para uma reflexão sobre o sentido da crise política que atingiu o PT e o governo Lula, com desdobramentos para a esquerda de um modo geral. A narrativa que vem sendo construída até aqui é a da tragédia, do desencanto e da desilusão. No entanto, ao contrário do que pode parecer, essa crise representa uma oportunidade extraordinária para a esquerda. Para isso, porém, impõe-se como tarefa neste momento superar a narrativa do desencanto, olhando para a crise de frente a aprendendo suas lições. Em um mundo onde a morte avança, aprender também é lutar pela vida. E essa luta é cada vez mais necessária diante da progressiva deterioração social, ambiental e cultural que ameaça o planeta.

É justamente neste momento que se torna mais necessário lembrar alguns dados objetivos sobre como avança essa deterioração. O relatório 2005 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) é uma ótima fonte para isso. Os números são estarrecedores e mostram, como disse recentemente Raul Pont, que a desistência não é uma opção. Vamos a eles, pois. As 500 pessoas mais ricas do mundo têm uma renda total superior ao conjunto de 416 milhões de habitantes mais pobres do planeta. Isso quer dizer que a renda de um desses bilionários é equivalente aos recursos de que dispõem 820 mil pessoas. Se o mundo fosse considerado como um único país, seu nível de desigualdade só seria inferior ao da Namíbia, país que possui o maior índice de desigualdade do planeta. Segundo a ONU, o índice de desigualdade do "país-mundo" seria de 67 pontos (em uma escala que vai de zero a cem), contra 70,7 pontos do país africano.

Ainda segundo o levantamento do Pnud, uma criança que nascer neste ano em um país como a Zâmbia, por exemplo, terá as mesmas chances de chegar aos 30 anos de idade do que tinha um habitante da Inglaterra em 1840. Neste estudo, o Brasil aparece como um dos países mais desiguais e injustos do planeta. É o sexto mais pobre do mundo e o oitavo mais desigual.

Embora o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) tenha melhorado um pouco (subiu de 0,790 para 0,792), só em cinco países os 10% mais pobres ficam com uma parcela de renda menor que a dos brasileiros miseráveis: Venezuela, Paraguai, Serra Leoa, Lesoto e Namíbia. No terreno da desigualdade social, estamos "na frente" apenas de Guatemala, Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia. No Brasil, 46,9% da renda nacional concentram-se nas mãos dos 10% mais ricos. Os 10% mais pobres ficam com apenas 0,7%.

Outro dado eloqüente: para cada dólar investido em ajuda humanitária, os países destinam dez para seus orçamentos militares. Os países mais ricos do planeta, que integram o Grupo dos Sete (G7), destinam pelo menos quatro vezes mais dinheiro para despesas militares do que para ajuda humanitária. No caso dos Estados Unidos, essa proporção é 25 vezes maior. A situação é ainda mais grave. O dinheiro que os países ricos dedicam por ano à luta contra a Aids - que mata três milhões de pessoas anualmente - representa os gastos de apenas três dias em armamento.

Segundo a avaliação do Pnud, qualquer avaliação das ameaças à vida humana reflete uma "assimetria notável" entre o orçamento militar e as necessidades das pessoas. Entre 2000 e 2003, esses países registraram um aumento de US$ 118 bilhões nas despesas militares. Com apenas 3% desse valor (cerca de U$ 4 bilhões) seria possível evitar

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