Rio de Janeiro, 21 de Janeiro de 2026

Bolsonaro e a banalidade do mal

Por José Ribamar Bessa Freire e Celso Lungaretti - A declaração de Bolsonaro em favor da tortura ecoou como o grito necrófilo de "Viva la Muerte" do general fascista espanhol José Millán-Astray.

Sábado, 23 de Abril de 2016 às 12:47, por: CdB
Por José Ribamar Bessa Freire e Celso Lungaretti – de Niterói e São Paulo:
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Franco, Hitler, Brilhante Ustra, Jair Bolsonaro
(Quando um deputado federal, Jair Bolsonaro, aproveita o momento de uma grande audiência na tevê para saudar um criminoso e torturador como seu herói, isso nos faz lembrar outros "heróis" e seus seguidores na Espanha fascista de Franco e na Alemanha nazista de Hitler e nos faz estremecer diante do risco da propagação da banalidade do mal no nosso país. Duas colunas se seguem para podermos agir enquanto é tempo. Nota do Editor)
DE MARIA MEIRELLES PARA JAIR BOLSONARO
José Ribamar Bessa Freire
Oh, pedaço de mim / Oh, metade arrancada de mim. (...)  A saudade é arrumar o quarto / Do filho que já morreu. (Pedaço de mim. Chico Buarque). Exmo. sr. capitão paraquedista reformado Deputado Jair Messias Bolsonaro (PSC/RJ) Sou Maria Garcia Meirelles, amazonense de Parintins, mãe de Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto, ex-secretário geral da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), preso, torturado e assassinado na prisão. Escrevo-lhe porque o senhor matou meu filho outra vez no domingo passado, em sessão da Câmara de Deputados, ao fazer uma apologia do crime exaltando seu colega de armas, coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador e assassino reconhecido, responsável por 60 mortes e por mais de 500 casos de torturas cometidos no Doi-Codi entre 1970-1974. Neste período, capitão Bolsonaro, Thomazinho combatia o golpe militar que rasgou a Constituição, derrubou o presidente eleito pelo voto popular, instituiu a censura e suprimiu as liberdades democráticas. Por isso, em 1970, foi preso e torturado no Doi-Codi. Condenado, cumpriu pena. Libertado dois anos depois, teve que se esconder. Foi aí que viajei ao Rio para encontrá-lo, na clandestinidade, levando um pouco do sabor de sua infância - uma paçoquinha que eu mesma fiz no pilão e que ele gostava tanto. Nosso encontro foi numa noite de fevereiro de 1973 em Copacabana. Senti dor imensurável ao ver o fruto das minhas entranhas machucado, lanhado, com marcas de tortura e cicatrizes no corpo. Era um pedaço de mim que estava ferido. Provou a paçoquinha e deitou a cabeça no meu regaço, sempre calado, discreto e triste. Eu lhe fiz muito carinho, sem saber que era uma despedida. Essa foi a última vez que o vi. A guerra suja Meu filho voltou a ser preso em 7 de maio de 1974, quando viajava do Rio a São Paulo, conforme documentos do DOPS/SP e relatório do Ministério da Marinha assinado pelo ministro Ivan Serpa. Cinco anos depois, o nome de Thomazinho constava numa lista publicada pelo Correio da Manhã (03/08/79) com 14 presos mortos pelos serviços secretos das Forças Armadas, mas somente em 1995 ele foi considerado oficialmente desaparecido. O corpo até hoje não foi localizado. Durante anos, não assumi o luto por meu filho, sempre com a esperança de reencontrar a quem me fez mãe. É que quando ele nasceu, eu também nasci como mãe. Admitir sua morte era, além de amputar uma parte de mim, matar minha maternidade. Meu filho era muito inteligente, doce, educado, generoso. Um príncipe. Todos gostavam dele. Eu não o esqueci nem um minuto, não podia imaginar um amanhã sem ele. Nunca soube de seu paradeiro. Levou tempo para ter a certeza de seu assassinato. A notícia foi confirmada quatro décadas depois pelo seu colega, capitão Bolsonaro, o ex-delegado do DOPS, Cláudio Guerra, atirador de elite, que escreveu o livro "Memória de uma Guerra Suja" para exorcizar os demônios que o atormentavam. Em entrevista a Alberto Dines, em junho de 2012, no Observatório da Imprensa, ele contou histórias de assassinatos e torturas durante a ditadura militar: - “Hoje mais uma historia triste para esclarecer é (do) desaparecido político Thomaz Antônio da Silva Meirelles. É...recebi um chamado do coronel Perdigão e fui ao quartel da Barão de Mesquita (...) Ali o coronel Perdigão me entregou um corpo num saco preto, né, (...), quando chegou em Campos abri o saco, vi que se tratava de um homem aparentando ter mais ou menos 40 anos.E muito machucado, ele estava apenas vestido com um calção, não tinha as unhas das mãos, estavam arrancadas, o rosto bem desfigurado pelas torturas, com sinais de queimaduras...". Viva a morte! A brutalidade da cena agride a humanidade. Quanta dor! Não desejo esse sofrimento para ninguém, capitão Bolsonaro, nem para dona Olinda - a sua mãe, nem para Michelle - sua esposa, nem para qualquer um de seus filhos - Eduardo, Flávio, Carlos, Renan e Laura. Ninguém merece isso, nem mesmo um execrável torturador. No meio da barbárie, luto para preservar minha humanidade. Vocês tiraram duas vidas: a minha e a do meu filho. Aconselhada a pedir indenização, não o fiz. O que queria era a verdade, nada mais, saber o paradeiro do meu filho em cujo túmulo em lugar desconhecido não pude colocar uma flor ou acender uma vela. O assassinato de Thomazinho como de tantos outros foi uma extrema covardia. Ele estava preso, desarmado, legalmente sob proteção do estado. Os assassinos, com salários pagos pelo contribuinte, envergonham o Exército nacional por praticarem um crime abjeto contra a humanidade, conforme definido pelo Direito Internacional. Como pode um ser humano se degradar tanto a ponto de torturar ou de apoiar a tortura? O senhor defendeu a tortura cometida por um coronel armado contra Dilma Roussef, uma mulher indefesa.
A sua declaração de voto, capitão Bolsonaro, revela covardia, que não me surpreende, pois o senhor é um notório agressor profissional de mulheres. Ofendeu Maria do Rosário (PT-RS) quando ela defendeu a Comissão da Verdade, insultou Benedita da Silva (PT-RJ), ameaçou a advogada indígena Joênia Wapichana, a cantora Preta Gil, a ministra Eleonora Menucucci (PT/MG), a senadora Marinor Brito (PSOL-PA) e até Marta Suplicy (PMDB/SP) quando ela defendia projeto de lei que criminaliza a homofobia. Tudo isso escancaradamente, publicamente. Racista, homofóbico e fascista, a sua declaração em favor da tortura ecoou como o grito necrófilo e insensato de "Viva la Muerte" do general espanhol José Millán-Astray, em 12 de outubro de 1936, criticado por Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, para quem só um mutilado mental carcomido pelo ódio é capaz de gritar "morra a vida". Capitão Bolsonaro, no Congresso do Cunha comandado por um réu no STF, o senhor votou e declarou que votava "sim" porque era a favor da tortura. Mais claro não canta um galo. Sua declaração de voto a favor da tortura me deu a certeza de que aquilo que está acontecendo no Brasil é mesmo um golpe. O Fora Dilma equivale a um Fora Thomazinho e Fora todos aqueles que combateram o outro golpe, o de 1964. Tenho pena do senhor pela besta-fera em que se transformou. Morro de vergonha de vê-lo representando parcela do povo brasileiro no Congresso Nacional. Se viva fosse, diante de tanta afronta e de tanto escárnio, me sentiria representada pela reação do deputado Jean Wyllys (PSOL/RJ) e pela ação atribuída à torcida do Corinthians na montagem da foto que circulou nas redes sociais. P.S.1 - Só foi possível psicografar esta carta de dona Maria, já falecida, graças a entrevista que ela deu a Jocilene Chagas em 1995. P.S. 2 - "Dilma não denunciou o impeachment como golpe em seu discurso na ONU" - anunciou o Jornal da Band (22/04). O apresentador Boechat fez questão de esclarecer que em nenhum momento a presidente Dilma ou qualquer outra fonte do Planalto informaram que ela assim o faria, que as fontes de tal informação eram da oposição. Mas na abertura do Jornal Nacional da Globo, minutos depois, Alexandre Garcia anuncia: "Dilma recuou e não denunciou o processo de impeachment por causa da pressão da oposição e do STF". Quer dizer, eles inventaram que ela ia falar, era uma invenção deles. Ela não falou e eles mantiveram a inverdade, dizendo que ela havia recuado. Uma mentira justificando a outra. Trata-se de desinformação e de manipulação descarada da opinião pública. As organizações Globo perderam toda compostura. Viva la Muerte!  

 O TORTURADOR BRILHANTE USTRA

Celso Lungarretti

Para minha surpresa, houve uma avalanche de visitas a este blogue por parte de internautas que, depois da performance canastrônica de Jair Bolsonaro no domingo do impeachment, queriam saber quem foi, afinal, o militar Carlos Alberto Brilhante Ustra. Fiquei espantado por tantos desconhecerem uma figura tão emblemática dos anos de chumbo e que morreu há tão somente seis meses, quando muito se publicou e falou sobre sua trajetória inglória. Escrevi constantemente sobre ele no passado, quando teimava em convencer o mundo de que o DOI-Codi não passava de uma inofensiva colônia de férias para adultos rebeldes. Depois, conforme a idade e a doença se fizeram sentir, minando as energias com que travava o mau combate, eu o fui deixando de lado. Não sou de bater em cachorro morto, ou quase.
Quando faleceu, aos 83 anos mal vividos, não tive sequer vontade de noticiar o acontecimento. Valeria a pena desperdiçar meu tempo com personagem tão medíocre? Tudo que havia para ser dito, já não o teria sido por Hannah Arendt ao discorrer sobre a banalidade do mal?
 
O velho e bom arquivo me socorreu. Repassando antigos textos, encontrei um de 2006, no qual fiz uma espécie de epitáfio precoce do Brilhante Ustra, colocando-o no lugar que merecia: um mero pau mandado da bestialidade, tão obtuso que acreditava estar servindo a pátria ao cumprir as ordens mais hediondas. 
 
Vale a pena reproduzi-lo aqui.
OS MOTIVOS DO TORTURADOR
Embora seja impossível simpatizar com os motivos de um Brilhante Ustra ou, sequer, aceitá-los, eu compreendo muito bem o que o leva a sentir-se traído e injustiçado.
Ao comandar o DOI-Codi, ele fez exatamente o que dele esperava o Exército: combateu o inimigo por todos os meios a seu dispor, sem importar-se com os direitos humanos, as convenções de Genebra e outras perfurmarias. Saiu-se vitorioso e foi aclamado por seus pares.
Veio a redemocratização e ele passou a ser estigmatizado como um monstro... sozinho! Levou merecidamente a culpa por tudo aquilo que seus comandados fizeram. Mas, ninguém se lembrou de cobrar de seus superiores a responsabilidade maior que tiveram nas atrocidades perpetradas pelo DOI-Codi durante os anos de chumbo. As conveniências políticas falaram mais alto do que o senso de justiça.
Se fosse um homem de princípios, Brilhante Ustra se rebelaria contra aqueles que lhe ordenaram que cometesse crimes contra a humanidade e depois se puseram a salvo, não carregando juntos com ele o fardo do opróbrio.
Mas, de quem fez o que ele fez durante 1970/1974 só poderia esperar-se o caminho tortuoso que preferiu trilhar: tentar convencer o Brasil inteiro de que as vítimas é que eram os algozes e ele, um pobre coitado sem culpa nenhuma no cartório.
Seus dois livros repulsivos, entretanto, atraíram contra ele a ira dos justos. Porque são montados a partir das informações arrancadas dos prisioneiros mediante as torturas mais cruéis, seja no próprio DOI-Codi, seja nos aparelhos clandestinos da repressão, de onde não se saia vivo. Era muita impudência utilizar o espólio de sua ignomínia para tentar justificar-se.
Então, eis Brilhante Ustra, mais do que nunca, sendo visto pelos brasileiros como o torturador-símbolo da ditadura militar.
Mas, não serei tão injusto com ele como ele sempre foi com os outros: afirmo, e assino embaixo, que seus superiores tiveram culpa ainda maior pelas práticas desumanas e desonrosas do DOI-Codi, nessa que foi uma das páginas mais vergonhosas da História do Brasil.
José Ribamar Bessa Freire, professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), onde orienta pesquisas de doutorado e mestrado e da Faculdade de Educação da UERJ, coordena o Programa de Estudos dos Povos Indigenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti. Tem mestrado em Paris e doutorado no Rio de Janeiro. É colunista do novo Direto da Redação.
Celso Lungaretti, jornalista e escritor, foi resistente à ditadura militar ainda secundarista e participou da Vanguarda Popular Revolucionária. Preso e processado, escreveu o livro Náufrago da Utopia. Tem um ativo blog com esse mesmo título.
Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.
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