Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 2026

Bolívia: todos festejam

Por Emir Sader - Balanço do resultado do plebiscito do gás depende de quem o faz. O presidente Carlos Mesa, a Confederação Operária Boliviana (COB) e o Movimento ao Socialismo (MAS) se julgam vitoriosos. (Leia Mais)

Quinta, 22 de Julho de 2004 às 09:52, por: CdB

O balanço da consulta feita aos bolivianos neste domingo (18) depende de quem o faz. O bujão de gás pode estar meio cheio ou meio vazio. O presidente Carlos Mesa se vangloria de que teria obtido cerca de 80% de votos favoráveis, apesar da campanha dos movimentos sociais pelo boicote ao plebiscito. Diz que sua posição saiu vencedora, que sua política recebeu o aval majoritário do povo boliviano e que seu governo sai fortalecido da consulta.

Os movimentos opositores - que vão da Confederação Operária Boliviana aos movimentos camponeses e indígenas nacionais e regionais - afirmam que os 40% de abstenção, em um plebiscito em que o voto foi obrigatório, com pesadas multas para quem não comparecesse, é uma vitória dos que pregavam o boicote, deslegitimando a consulta, a política de Mesa e o seu governo e favorecendo a posição de nacionalização imediata das minas de gás.

Resta ainda o líder cocaleiro Evo Morales, dirigente do Movimento ao Socialismo (MAS), que alega que saiu vitorioso, porque o plebiscito teria se desenvolvido com normalidade - ao contrário do que pregavam a COB e seus aliados - e que a posição do seu partido de votar favoravelmente nas três primeiras perguntas do plebiscito e contrário nas outra duas, foi majoritária. Baseia-se no fato de que essas três primeiras questões - que mais diretamente se referem à questão da nacionalização do gás - receberam 80% de votos favoráveis dos que compareceram, enquanto as outras receberam cerca de 50%.

Se levamos em consideração que, com a abstenção de 40%, a resposta favorável nas primeiras três perguntas na consulta se reduziria a pouco menos da metade dos votantes, e a 30% a aprovação das outras duas restantes - a legitimidade de Mesa e a vitória que ele proclama ficam bastante questionadas.

A maior vitória de Carlos Mesa foi ter conseguido dividir o vigoroso movimento que derrubou, em outubro do ano passado, a quem encabeçava a chapa em que ele foi eleito vice-presidente - Sanchez de Losada. Com isso, pôde fazer aprovar um tipo de plebiscito que não respondia à reivindicação daquele movimento, ao colocar questões que tergiversavam o tema central da nacionalização.

Evo Morales conta com a convocação da Assembléia Constituinte, prevista para o primeiro semestre do próximo ano, como espaço em que acredita que se possa forjar uma institucionalidade mais democrática e abrir caminho para sua vitória nas eleições presidenciais de 2006. Quanto aos movimentos sociais, acreditam ter conseguido desgastar a legitimidade que Mesa pretendia e isolar a Morales de parte das bases que o apoiavam anteriormente.

O certo é que a instabilidade institucional boliviana não fica superada com o desenlace do plebiscito. Mesa tem que demonstrar que a vitória que proclama lhe permitirá colocar em prática sua política no tema estratégico da produção de gás e de sua exportação, sem que o movimento popular lhe imponha novos obstáculos.

Evo Morales precisa demonstrar que não ficou isolado, imprensado entre o governo e os movimentos sociais. E estes precisam demonstrar que conseguem ter propostas de superação da crise, e não se limitam a impor seu poder de veto às alternativas existentes. O jogo continua aberto na Bolívia, com os escapes de gás podendo provocar novas explosões sociais.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História".

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