Filas imensas de caminhões com cargas deterioradas serpenteavam no meio da floresta boliviana na segunda-feira, em decorrência de mais bloqueios de estradas realizados por manifestantes antigoverno. Já se teme que falte alimentos nas principais cidades do país.
O presidente Carlos Mesa, que ameaçou deixar o cargo na semana passada por causa dos protestos, advertiu que dentro de duas semanas o governo pode ficar sem dinheiro para pagar os salários dos funcionários públicos, com a paralisação do comércio devido aos bloqueios.
Manifestantes indígenas colocaram pedras e troncos de árvores nas estradas para protestar contra a abertura do setor de energia ao investimento estrangeiro. Eles alegam que as empresas estrangeiras vão se beneficiar da riqueza natural andina sem que haja destinação de recursos para as comunidades indígenas.
- Essa crise não é tanto por causa da energia. É todo mundo contra o governo. Não se sabe quanto tempo mais Mesa pode resistir com o país paralisado desse jeito - disse o analista político Jorge Lazarte.
Os bloqueios, que acabam dividindo o país ao meio, impedem que produtos agrícolas do leste da Bolívia cheguem à capital e aos portos do Pacífico para ser exportados.
- Isso está custando milhões de dólares por dia aos exportadores, e a maioria dos carregamentos de produtos básicos como ovos, frango e soja não está chegando ao resto do país - disse Carlos Dabdoub, representante de um movimento separatista que ganha força na província de Santa Cruz.
Os planos para um encontro entre Mesa e líderes da oposição na segunda-feira desmoronaram quando o presidente decidiu não participar. Sindicatos convocaram uma greve de 48 horas, com início na terça-feira.
Mesa submeteu sua renúncia ao Congresso na semana passada, e logo depois a retirou, quando os parlamentares manifestaram seu apoio a ele. Mas as esperanças de que o país se estabilizaria com a manobra evaporaram.
- Esses bloqueios estão paralisando o país - disse Mesa num pronunciamento pela TV no domingo.
- Os bolivianos precisam ser unânimes em sua oposição a esses esforços para nos dividir.
Vários líderes da oposição descrevem o impasse como uma batalha entre a maioria indígena pobre e a elite de ascendência européia.
O antecessor de Mesa, Gonzalo Sanchez de Lozada, deixou o cargo em outubro de 2003, quando protestos semelhantes mataram dezenas de pessoas. Os partidos de oposição dizem querer a permanência de Mesa no posto, mas querem mais influência sobre a política econômica.
- A situação é exatamente a mesma que antes de Mesa renunciar, e pode-se dizer que até pior - disse Lazarte.
Mesa pediu ao Congresso que aprove a nova lei de energia, que abriria as reservas de gás natural à exploração de empresas como a Petrobras. Mas os líderes indígenas exigem uma cobrança maior de impostos às empresas para que retirem os bloqueios.
Bolívia teme que protestos causem escassez de alimentos
Segunda, 14 de Março de 2005 às 12:58, por: CdB