Desde 2002 os movimentos sociais bolivianos haviam anunciado que se o governo de Sanchez de Losada insistisse em exportar o gás boliviano através de portos chilenos ao México e aos Estados Unidos haveria uma "guerra civil" no país. A maioria da população é contra essa iniciativa e pede a industrialização interna do gás.
Apesar do alerta, a decisão do governo de seguir adiante com seus planos faz o país vizinho caminhar rumo ao que pode ser exatamente o começo de uma guerra civil.
A greve geral decretada pela Central Operária Boliviana (COB) segue em frente, paralisando dois terços do país. A onda generalizada de protestos faz com que o movimento reflita uma série de outras reivindicações e descontentamentos, o que amplia o isolamento geral do governo e consolida a mobilização social e política que questiona a continuidade do mandato de Sanchez de Losada.
Ele havia sido eleito por uma ampla maioria no Congresso, contra o candidato dos movimentos sociais e das comunidades indígenas, Evo Morales. O país é majoritariamente indígena: os censos indicam que a população autoidentificada como indígena é de 61,21%, que corresponde justamente aos setores mais pobres da população - residem no campo, onde está 90% da pobreza da Bolívia.
Depois dos massacres do que chamam de "fevereiro negro" de 2003, quando morreram mais de 30 pessoas, o governo de Losada não conseguiu se recuperar. Ao contrário, acelerou seus planos repressivos, mediante uma chamada "Brinquedo raivoso", expressa numa "instrução militar extraordinária antidistúrbios", para ser posta em prática por Agrupações Táticas Antidistúrbios, fortemente armadas.
Criminaliza-se o protesto social com a pena de cinco a oito anos de prisão para os que realizem bloqueios "dos transportes públicos, por terra, ar ou água". A questão é relevante para o país porque foi exatamente com esse tipo de mobilização que os trabalhadores bolivianos conseguiram evitar que o governo anterior, de Hugo Banzer, privatizasse a água, em um dos movimentos mais importantes nessa luta mundial pelo direito à água.
Estendem-se os casos de corrupção na máquina estatal, ao mesmo tempo em que o governo tenta colocar em prática um novo e duro ajuste fiscal, do qual faz parte a venda do gás boliviano, o fim de impostos para as empresas petrolíferas e a redução pela metade das aposentadorias dos trabalhadores.
Desde o início de setembro haviam recrudescido as marchas e as mobilizações de vários setores populares, entre eles os aposentados, os professores, policiais, militares, camponeses, indígenas, trabalhadores sem terra. Depois de deflagrada a greve, o movimento passou a exigir a renúncia de Sanchez de Losada, que responde com a militarização de várias cidades. O movimento, que tem no líder indígena Felipe Quisque sua principal cabeça, exige que o governo cumpra com os acordos das mobilizações anteriores, em relação a terras, máquinas e créditos aos trabalhadores rurais.
O clima geral faz prever grandes enfrentamentos e perspectivas de que o isolamento do governo o leve ou à renúncia ou à sua definitiva militarização. O Brasil tem de colocar sua atenção no que ocorre no país vizinho, parceiro nos projetos de integração regional que vive uma situação com potencial para se transformar em uma crise de proporções que a América Latina não viu ainda neste último período.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História" (Boitempo Editorial) e "Século XX - Uma biografia não autorizada" (Editora Fundação Perseu Abramo).
Bolívia à beira da guerra civil
Por Emir Sader - A greve geral decretada pela Central Operária Boliviana paralisa dois terços do país. Os protestos ampliam o isolamento do governo Sanchez de Losada e consolidam a mobilização contra a continuidade de seu mandato. (Leia Mais)
Segunda, 06 de Outubro de 2003 às 19:08, por: CdB