Presidente do México chega ao Brasil para fazer jogo de cena. Líder de um governo enfraquecido, com duas derrotas eleitorais seguidas, Fox não tem condições de integrar realmente seu país ao Mercosul, pelos acordos que o mantêm no Nafta.
Com derrotas nos três Estados mexicanos onde houve eleições neste final de semana, o presidente Vicente Fox recebeu uma pá de cal definitiva em seu mandato presidencial. Na prática, a situação de seu mandato de seis anos, iniciado em 2000, já havia sido reduzido à metade desde julho do ano passado, quando seu partido, o PAN (Partido da Ação Nacional), foi amplamente derrotado nas eleições parlamentares. Se já tinha de conviver com minoria parlamentar, o fracasso dos três primeiros anos de governo Fox em desenvolver a economia resultaram no crescimento do PRI e do PRD, seus principais adversários. Ao mesmo tempo, está aberta a campanha presidencial de 2006.
Não custa lembrar. Fox foi ungido como o homem dos Estados Unidos na América Latina. Como ex-gerente-geral da Coca Cola, amigo do texano George W. Bush, ele reunia todas as credenciais para relatar à América Latina as maravilhas do livre-comércio, através da experiência do Nafta, o acordo de livre-comércio da América do Norte. Além disso, Fox pretenderia usar sua amizade com o rancheiro da fronteira norte do México para melhorar a situação dos 14 milhões de mexicanos, a maioria ilegais, nos EUA.
A economia mexicana cresceu enquanto a norte-americana crescia nos anos 90. Mas a expansão mexicana ficou restrita à região norte do país, na fronteira com EUA, onde as indústrias maquiladoras se instalaram para usar mão-de-obra barata - em geral mulheres e crianças. Mas quando a economia norte-americana entrou em recessão, o México pagou duplamente por essa brutal dependência de ter mais de 90% de seu comércio exterior feito com os EUA: o país entrou em recessão, acentuada quando as próprias empresas norte-americanas encontraram na China um mercado com mão-de-obra ainda mais barata, apesar do custo do transporte.
O México retrocedeu mais do que havia crescido. Além disso, as medidas de controle fronteiriço dificultaram ainda mais a situação dos mexicanos nos EUA, ao invés de melhorar, conforme prometera Fox. Seu governo se esgotou rapidamente e desde as eleições parlamentares de 2003 se disputa o seu espólio: quem o sucederá? O PRI vai voltar, com sua poderosa máquina partidária? Ou será a vez do PRD de Lopez Obrador, favorito nas pesquisas e que realiza um bom governo na capital do país?
Por essas razões, Fox chega nesta terça-feira (6) ao Brasil para fazer não mais que jogo de cena. É claro, fará propaganda da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), cujas negociações continuam travadas. Seu governo já perdeu qualquer capacidade de iniciativa e, além disso, o México não tem margem de manobra para entrar realmente no Mercosul, como defende o presidente, por estar plenamente integrado ao Nafta e privilegiar, assim, os intercâmbios econômicos com EUA e Canadá.
Vicente Fox vem então como caixeiro-viajante de um governo fracassado e de um projeto - a Alca - em grandes dificuldades. Como jogo de cena, fingirá que o México tem autonomia diante dos EUA e pretende retomar a autonomia relativa de sua política externa, enterrada por seu antecessor, Ernesto Zedillo, e por ele mesmo. A viagem se esgotará quando os acordes dos boleros terminarem e a orquestra voltar para o seu lugar. Depois, Fox voltará sua atenção para o que efetivamente o preocupa - a candidatura de sua mulher à sua sucessão -, nota final de um melodrama que o México não merecia.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História".