Rio de Janeiro, 19 de Setembro de 2026

Boicote a Israel

Por Boaventura de Sousa Santos - Israel é um Estado colonial que submete os palestinos a um apartheid mais grave que o infligido às populações negras na África do Sul. É tempo de o mundo dizer: Basta! O holocausto não justifica tudo! (Leia Mais)

Quinta, 03 de Junho de 2004 às 08:18, por: CdB

O tema que vou tratar hoje não será abordado por nenhum dos candidatos ao Parlamento Europeu. É um tema "sensível". Para o tratar, socorro-me de fontes e interpretações judaicas, ainda que saiba que isso não me poupará de ser acusado de anti-semitismo. Tenho para mim que Israel é um Estado colonial que submete o povo palestino a formas de "apartheid" mais graves que as que foram infligidas às populações negras pela África do Sul racista pré-Mandela. Esta situação, que dura desde 1948, assumiu nos últimos dois anos proporções inauditas. O Estado de Israel foi longe demais e não é provável que possa voltar atrás pela ação exclusiva de forças internas. É tempo, pois, de a comunidade internacional dizer: Basta! O holocausto não justifica tudo!

E de converter essa exclamação em ações eficazes. Uma delas é o boicote a produtos e cidadãos israelitas, e ninguém o poderá levar a cabo com mais eficácia que os cidadãos da União Europeia. Os parlamentares europeus que se associarem a esta ação estarão a dar um contributo importante para a paz no médio oriente. Reconheço que boicotar pessoas, muitas delas tão críticas do que se passa quanto nós, é tão doloroso para quem é boicotado como para quem boicota. Recordo, no entanto, que no caso da África do Sul esta foi uma das dimensões mais eficazes do boicote. Quando os artistas, os cientistas, os jornalistas sul-africanos verificaram que o "apartheid" punha em causa de modo muito concreto o normal desenrolar das suas vidas e não apenas o da dos negros, intensificaram muito mais a luta política interna anti-apartheid, e aceleraram com isso o fim do odioso regime.

A criação do Estado de Israel envolveu a expulsão de milhões de palestinos das suas terras ancestrais numa operação com traços de limpeza étnica, como se conclui de passos não censurados das memórias de Yitzhak Rabin. Começou então o "politicídio" dos palestinos, como lhe chamou o sociólogo israelita Baruch Kimmerling, que passou pela ocupação da faixa de Gaza e da margem ocidental do Jordão, pela política dos colonatos judeus em territórios ocupados, pela construção de uma grelha de estradas destinada a separar as cidades e as aldeias palestinas, pelas barreiras de estradas e checkpoints, pelos passes em tudo semelhantes aos que os negros sul-africanos tinham de mostrar para entrar nas zonas dos brancos.

Por fim, a construção do Muro de Segurança, uma parede de 8 metros de altura que, quando pronta, terá 700 quilómetros e se destina a encerrar os palestinos num enorme campo de concentração, onde só faltarão os fornos de cremação. Já estão construídos 180 km. Segundo a agência das Nações Unidas para a coordenação da ajuda humanitária, já foram abatidas 102.320 árvores. Como este Muro da Vergonha está a ser construído dentro dos territórios palestinos, já foram confiscados 1.140 hectares. As crianças palestinianas estão a aprender a trepar a parede para não chegarem tão tarde à escola.

Há hoje dois "apartheids" em Israel. Um dentro do seu território, que atinge cerca de um milhão de palestinos. O jornal israelita Haarezt da passada sexta-feira descreve o contraste chocante entre as condições sociais no bairro árabe (Rakevet) da cidade de Lod e as dos bairros judeus circundantes. Os habitantes do bairro não podem hoje sair dele sem passar por barreiras policiais. O segundo "apartheid" é o que está a fechar os palestinos em territórios sem viabilidade econômica, sem controle sobre qualquer dos recursos básicos e donde não se pode sair sem autorização da potência ocupante. E como se isto não bastasse, estão a ser arrasados bairros inteiros na faixa de Gaza, onde a porcentagem da população a viver abaixo do nível da pobreza é de 84%. É tempo de a comunidade internacional dizer: Basta!

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal)

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