Rio de Janeiro, 09 de Setembro de 2026

Bloco anti-Dilma despe a fantasia no Rio

Por Maurício Thuswohl - As cartas estão na mesa para as eleições no Rio de Janeiro e dizem muito sobre a verdadeira disputa política que se trava este ano no Brasil. A decisão do ex-prefeito carioca Cesar Maia (DEM) de integrar como candidato ao Senado a chapa do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), que tentará a reeleição, coloca finalmente em campos nítidos e opostos forças políticas que nos últimos anos andaram se confundindo – e confundindo os eleitores – em alianças com pouca clareza programática, para dizer o mínimo.

Quarta, 25 de Junho de 2014 às 10:45, por: CdB
dilmabloco.jpg
Que Dilma possa observar o que ocorre no Rio a tempo de escolher o melhor posicionamento. Que deixe de disputar com Aécio o desgastado apoio do PMDB
As cartas estão na mesa para as eleições no Rio de Janeiro e dizem muito sobre a verdadeira disputa política que se trava este ano no Brasil. A decisão do ex-prefeito carioca Cesar Maia (DEM) de integrar como candidato ao Senado a chapa do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), que tentará a reeleição, coloca finalmente em campos nítidos e opostos forças políticas que nos últimos anos andaram se confundindo – e confundindo os eleitores – em alianças com pouca clareza programática, para dizer o mínimo. Abençoado pelo ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), que cederá a Cesar a vaga de candidato a senador, o acordo tem como único e principal objetivo reunir em um mesmo palanque, sobretudo no palanque eletrônico da propaganda eleitoral da televisão, as forças políticas e sociais que querem ver Aécio Neves como o próximo presidente da República. Esse agrupamento é sintomático de uma direita que, ao vislumbrar uma chance de sucesso eleitoral em outubro, despe a fantasia. Agora oficialmente juntos no Rio de Janeiro, PSDB, DEM e o “PMDB orgânico” articulado em torno de seu presidente regional, Jorge Picciani, integram o núcleo duro do conservadorismo de classe no Estado. Um conservadorismo que detesta o PT e sua forma de governar e não quer de jeito nenhum ver a presidenta Dilma Rousseff reeleita. Que Dilma fique atenta ao que acontece no Rio! A presidenta, com base na boa e amistosa relação política construída com Cabral e Pezão ao longo do segundo mandato de Lula e de seu próprio mandato, parece crer no apoio que os dois, assim como o prefeito Eduardo Paes (PMDB), garantem lhe conferir. Quem vive a política fluminense em seu dia-a-dia, no entanto, sabe que, na prática, foi dada pela cúpula peemedebista carta branca para que Picciani iniciasse junto a prefeitos e deputados o movimento de apoio a Aécio, batizado singelamente pela grande mídia como “Aezão”. Se, em nome da relação institucional entre as esferas do Poder Executivo, Dilma mantiver a neutralidade com a qual acena para a disputa no Rio, poderá estar caindo em uma armadilha política. Cabral e Pezão se tornaram aliados de Lula por motivos óbvios. Após quatro anos de relação conflituosa com a gestão de Rosinha Garotinho (PR), o presidente viu na aliança com o então recém-eleito governador do Rio pelo PMDB a possibilidade de aumentar a presença do governo federal no estado. Cabral, por sua vez, dinamitou as pontes que o ligavam ao clã Garotinho e virou um “grande amigo” do PT, assim como fez dois anos depois o ex-tucano Paes. Quem não se lembra que o atual prefeito do Rio, quando era deputado e vice-líder do PSDB na Câmara, em 2005, foi integrante destacado da CPI dos Bingos e fez juras de ódio a Lula e ao PT? Antes de virar tucano, Paes ingressou na política pelas mãos de Cesar Maia. Agora, em que pesem as afirmações em contrário, todos parecem estar novamente juntos, reunidos em torno do objetivo de apear o PT do poder federal. Do outro lado da trincheira eleitoral alinham-se forças que historicamente representam os setores progressistas da política e da sociedade fluminense. Juntos em torno da candidatura do senador petista Lindbergh Farias ao governo estadual, PT, PV, PCdoB e PSB concretizam uma frente popular, de esquerda e ecológica, em condições de construir uma unidade programática e capaz de mudar os rumos da política no estado. Depois de idas e vindas dos partidos em alianças muitas vezes erráticas, essa frente coloca novamente lado a lado forças políticas que lutaram pela redemocratização do país na segunda metade dos anos 80, reúne diversos personagens que se forjaram no movimento estudantil daquela época e tem profunda coerência. Não é uma “suruba política”, como qualificou o deputado federal Alfredo Sirkis (PSB), frustrado por não ter sua candidatura ao governo bancada pelo partido. Que Dilma possa observar o que acontece no Rio a tempo de escolher o melhor posicionamento. Que deixe de disputar com Aécio o desgastado e desgastante apoio do PMDB e se coloque com nitidez ao lado dos que defendem seu projeto de aprofundamento das mudanças no país. É preciso tirar uma útil lição do acordo entre PT e PSB em torno de Lindbergh. Mesmo sabendo que uma parte da militância estará pedindo votos para Eduardo Campos e outra parte para Dilma, sem falar em Eduardo Jorge (PV), a aliança regional superou esse obstáculo em nome de uma coerência programática que também já aproxima militantes e simpatizantes da REDE de Marina Silva. Em um eventual segundo turno para presidente que coloque em lados opostos Dilma e Aécio, parece evidente que toda a militância mobilizada para a campanha de Lindbergh pedirá votos para Dilma. Além disso, se o petista sair vitorioso nas urnas poderá ser inaugurado no Rio a partir de 2015 (não custa nada sonhar) um modelo de governo popular e de esquerda com aliança programática no parlamento sustentada pelas bancadas de PT, PSB, PV e PCdoB. Essa frente de esquerda poderá crescer se o PSOL - que optou por lançar o deputado estadual Marcelo Freixo à reeleição e a candidatura simbólica de Tarcísio Motta ao governo - decidir apoiar Lindbergh em um eventual segundo turno. Esse cenário é perfeitamente possível e nos faz imaginar como seria uma aliança desse mesmo quilate no governo federal, com mais forças de esquerda e menos PMDB, viabilizando um projeto de país que não esteja subjugado aos interesses dos bancos, do agronegócio e do oligopólio de mídia. Que Dilma e o PT pensem nisso. Maurício Thuswohl,  é jornalista
Tags:
Edições digital e impressa