Rio de Janeiro, 14 de Outubro de 2026

Biopolítica na América Latina

Por Isabel Cassigoli - Os estudos sobre biopolítica não são novos e, desde já, identifica-se uma segunda ou terceira geração de trabalhos sobre a questão. (Leia Mais)

Quinta, 30 de Outubro de 2008 às 11:50, por: CdB

Os estudos sobre biopolítica não são novos e, desde já, identifica-se uma segunda ou terceira geração de trabalhos sobre a questão. Um conjunto de novos problemas é proposto a partir dessa perspectiva em relação ao direito, à economia, à sociologia, à psicologia social, à filosofia, à biomedicina, às neurociências, às formas de dispor os sujeitos no espaço urbano e rural, às migrações, ao controle dos âmbitos de biodiversidade. Em síntese, o dispositivo conceitual denominado "biopolítica" possibilita novos olhares sobre as mudanças e mutações no exercício do governo do território, entendendo-o como uma articulação entre a população e o meio, a população e as coisas.

O diálogo com essas perspectivas nos leva geopoliticamente à nossa região, assinalando que a construção discursiva e material "América Latina" pode ser problematizada a partir da biopolítica. Dado que no atual capitalismo mundial integrado, América Latina ocupa um lugar chave enquanto reserva mundial de alimentos, matérias-primas e de biodiversidade; mas também porque alberga populações com culturas e tradições diferentes, bem como uma persistente história de mutações no exercício do poder e da criação de diversas formas de resistências. Por tudo isso, a América Latina se constitui em um cenário privilegiado de verificação do que os pensadores inaugurais da biopolítica observaram na Europa. Nesse sentido, a próxima realização do Segundo Colóquio Nacional e do Primeiro Encontro Latino-americano de Biopolítica, Tecnologias e Políticas sobre a Vida (1), propõe o pressuposto de que a "América Latina" não pode ser captada à margem da biopolítica, nem a biopolítica à margem da "América Latina".

Trata-se de um conceito introduzido pelo filósofo Michel Foucault, que dá conta dos mecanismos por meio dos quais a vida (humana, animal e vegetal) entra na história e se constitui em um objeto de saber-poder, em objeto jurídico, de cálculos políticos e econômicos. Enfim, é tomar a gestão da vida, otimizar um estado de vida, produtivizar seus rendimentos. Nesse sentido, a biopolítica é também uma cambiante gestão da morte, pois o complemento inseparável do gerenciamento da vida é a manipulação da morte em suas diversas formas, não somente física, mas também social e das representações subjetivas da morte que condicionam os avatares das subjetividades singulares e coletivas.

América Latina, construção espacial e temporal que nos habita, não pode ser captada à margem de seu devenir na história da ordem capitalista, nem de sua contemporaneidade neoliberal. Programação que nos leva a organizar, intervir e condicionar o marco, o meio, no qual se desenvolverão a população e suas subjetividades. Espaço de liberdade vigiada e produtivizada a fim de tornar possível os mecanismos do mercado. Definitivamente, aqui temos o propriamente biopolítico da governabilidade do presente: as estratégias e discursos que tentam regular a realidade, como também seus acontecimentos e dinâmica. Porém, como a biopolítica é uma forma de exercício do poder -e não existe poder sem resistências-, América Latina é ao mesmo tempo esse corpo múltiplo, variado e criativo que insere fendas, que recheiam estrategicamente as estratégias.

É necessário não esquecer que as tecnologias de poder a partir das quais se constitui o "latino-americano" são, ao mesmo tempo, tecnologias de saber. De modo que no próprio ato da investigação e da reflexão coletiva, ao dotar de visibilidade e de realidade, a dimensão biopolítica também está participando dessa cartografia em construção. Da mesma maneira que o fazem as políticas de vida, éticas, saberes, contra-condutas e modos de vida que, constantemente, desafiam a racionalidade produtiva.

Nesse cenário, no qual a vida se deveniu em objeto político essencial, o convite a participar desse Seminário sobre Biopolítica na América Latina, convocado desde distintos centros acadêmicos do Chile e da Argentina, busca instalar um espaço de diálogo acerca do latino-americano e da biopolítica, explorando essa relação in-visibilizada pelo pensamento político metropolitano.

Nota:

(1) O evento vai acontecer em Santiago de Chile, de 4 a 7 de Novembro 2008

Isabel Cassigoli é coordenadora geral do Segundo Coloquio Nacional de Biopolítica.

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