A advertência foi feita durante a World Water Week, a conferência mundial que reúne esta semana na capital sueca 2.500 representantes de 140 países, organizações não-governamentais e agências da ONU para debater a questão da água.
- É preciso enfatizar o fator água no debate sobre os biocombustíveis - destacou em entrevista à BBC Brasil o professor Jan Lundqvist, diretor do Comitê Científico do Instituto Internacional da Água de Estocolmo (SIWI).
Projeções sobre o crescimento da demanda por biocombustíveis indicam que este aumento pode ter efeitos perversos sobre a oferta de água, já ameaçada pela necessidade de produzir alimentos para a crescente população global.
Consumo de água
- Atualmente a quantidade de água usada em todo o mundo na produção de alimentos é da ordem de 7 mil metros cúbicos. Em 2050, a previsão é de que essa quantidade aumente para 11 mil metros cúbicos, o que significa quase o dobro da água utilizada hoje - diz Lundqvist.
- E as projeções indicam que a água necessária para produzir biocombustíveis crescerá na mesma proporção que a demanda de água por alimentos, o que representaria a necessidade de 20 a 30 milhões de quilômetros cúbicos em 2050. E isto não é possível - ressalta o cientista sueco.
O professor Peter Rogers, da Universidade de Harvard, alertou em entrevista à BBC Brasil que a produção de biocombustíveis pode representar uma séria pressão adicional sobre o uso da irrigação em todo o mundo, além das conseqüências para a oferta de alimentos. Até o ano 2050 a população mundial deverá crescer em até três bilhões de pessoas, um aumento de 50%.
- A população mundial dobrou desde os anos 60 até agora. No mesmo período, o consumo de água aumentou seis vezes. Chegamos ao ponto em que já se usa mais da metade dos recursos de água doce existentes no mundo. Quando a população global for novamente dobrada em quantidade, de onde virá a água? - adverte Rogers.
Mudanças climáticas
As mudanças climáticas já representam um sério impacto sobre os recursos hídricos, observa o cientista americano. E a necessidade de cumprir a meta do Milênio da ONU, de reduzir para a metade a pobreza extrema no mundo em 2015, implica um aumento imediato da produção de alimentos.
- O aumento da produção de biocombustíveis pode significar, portanto, uma pressão adicional sobre os recursos hídricos - diz Rogers.
De acordo com os cientistas, os países precisam pensar duas vezes antes de embarcar em projetos de produção de biocombustíveis em larga escala. O Brasil deve evitar os riscos para o meio ambiente e a oferta de alimentos.
- O Brasil tem o potencial de aumentar a produção de biocombustíveis em áreas que não são utilizadas para o cultivo de alimentos e em regiões onde existe a possibilidade de elevar a produção sem conseqüências negativas diretas para o meio ambiente ou o abastecimento de alimentos - indica Lundqvist.
Apesar das advertências, os cientistas evitam fazer dos biocombustíveis uma espécie de novo vilão na questão da água. Segundo eles, o setor de biocombustíveis ainda é uma área relativamente nova, que traz também oportunidades.
- Tecnologicamente, haverá uma segunda geração de biocombustíveis, e já há pesquisas para tentar desenvolver bioenergia a partir de celulose, por exemplo. O que é urgente neste momento é estar atento para a necessidade de prát