Às sete horas da noite de cada quarta-feira, centenas de habitantes da Bielorrússia batem palmas ou fazem soar os seus telemóveis simultaneamente nas principais praças de todo o país. Por Claudia Ciobanu, da IPSArtigo |29 Julho, 2011 - 14:47Às sete horas da noite de cada quarta-feira, centenas de habitantes da Bielorrússia batem palmas ou fazem soar os seus telemóveis simultaneamente nas principais praças de todo o país, trata-se do movimento Revolução Mediante as Redes Sociais
Trata-se do movimento Revolução Mediante as Redes Sociais, criado há nove semanas por cinco estudantes. O fenómeno cresce hospedado no equivalente russo do Facebook, o Vkontakte, supondo uma nova ameaça ao regime do presidente Alexander Lukashenko.
“Este não é o primeiro movimento da tradicional oposição do país. Os participantes são pessoas que jamais se envolveram em acções da oposição e que nunca protestaram antes”, explicou à IPS um dos seus fundadores, Mikita Krasnou. “Os habitantes da Bielorrússia procuravam novos organizadores, novos representantes. À oposição tradicional também interessa desempenhar um papel neste movimento, e isto a uniu ainda mais”, acrescentou.
A estratégia do grupo confunde as autoridades. No dia 3, por ocasião do desfile do Dia da Independência, a polícia anunciou rígidas restrições aos aplausos: somente poderiam manifestar-se desta forma quem fosse veterano ou ex-soldado. Quem não cumprisse a medida seria preso. As autoridades também impõem limitações ao uso da internet. Mais de 40% da população tem acesso à rede de computadores, mas os que a usam no local de trabalho, se for uma empresa pública, não podem ter acesso a sites independentes.
Desde o ano passado, os que usam o cibercafé precisam de apresentar os seus passaportes. E desde Junho deste ano, todos os sites do país são obrigados a utilizar o domínio local “by”, o que torna mais fácil controlá-los. Todos os serviços da internet dependem do provedor estatal, e a conexão é cara e de má qualidade. Nos últimos tempos, o acesso ao Vkontakte é bloqueado todas as quartas-feiras.
Mas a KGB (serviço de segurança) emprega tácticas repressivas mais brutais contra os ciberactivistas. No dia 3 deste mês houve muitas prisões. Outras pessoas, cujos telemóveis foram rastreados para averiguar se foram usados nas principais praças na hora das acções, foram interrogados. Desde que começaram os protestos, cerca de 1.500 pessoas foram detidas, algumas por uns dias e outras condenadas a um ano de prisão.
“Há 15 anos, se alguém pertencia à oposição, ou era político ou combatente, mas agora simplesmente tem de ser um combatente”, disse à IPS Aliaksey Shydlovski, um dos primeiros prisioneiros da fase posterior à independência e co-fundador dos movimentos Frente Juvenil e Bizon. Exilado em Praga há dois anos, acredita que “as pessoas que hoje saem às ruas na Bielorrússia são mais valentes do que nós, especialmente as mulheres. O regime tornou-se mais inseguro e, portanto, mais duro”, afirmou.
A insegurança do regime tem origem, em boa parte, na crise económica que domina o país desde o ano passado, depois que a Rússia fez disparar o preço do gás no final de 2009. Este ano, a moeda nacional desvalorizou-se cerca de 50%, os preços dos produtos básicos aumentaram e a população acumulou vários deles, principalmente alimentos. Sem o apoio do Fundo Monetário Internacional, a Bielorrússia recebeu empréstimo de estabilização de 3 mil milhões, concedido pela Comunidade Económica Eurasiática, controlada por Moscovo.
As condições para este empréstimo implicam privatizar bens do Estado. Metade da Beltransgaz, empresa nacional de gás natural e infraestrutura, já pertence à russa Gazprom, e o restante das suas acções também pode ser vendido aos russos. Cerca de um quinto do gás russo usado na Europa chega através da Bielorrússia. “O que Moscovo está a fazer agora é usar as sanções económicas para enfraquecer Lukashenko e obter o controle da economia da Bielorrússia para os oligarcas russos”, disse Raman Kavalchuk, outro líder da oposição da geração da Frente Juvenil.
“Lukashenko cairá com o tempo. Definitivamente, isto exigirá mais que uma mobilização pela internet. Será preciso que sindicatos e iniciativas independentes coloquem milhares de pessoas nas ruas. Mas isto pode acontecer lentamente: a maioria da população não aceitará não voltar a comer carne por conta dos preços proibitivos’, afirmou Kavalchuk à IPS. Vender os bens do Estado à Rússia enfraquecerá o poder do presidente. Porém, sem essa medida não terá como sair da crise económica que está a voltar-se contra ele até nos sectores da população mais ligados ao presidente, que apreciam a estabilidade económica que no passado era oferecida pelo regime.
“Os três factos políticos mais importantes deste ano foram a revelação de que a KGB torturava prisioneiros políticos, os protestos de motoristas contra a alta do preço do combustível e a Revolução Mediante as Redes Sociais”, disse Ales Michalevic, político actualmente exilado na República Checa, após passar dois meses na prisão por se apresentar como candidato nas eleições presidenciais de Dezembro.
Krasnou disse que “há diferentes meios para derrubar Lukashenko”. Segundo ele, “primeiro tentámos pela via legal, a fim de não dar ao regime nenhuma desculpa para nos prender e torturar. Agora que temos muitos partidários e pessoas que nos comunicam por meio das redes sociais que estão prontas para se unir e solucionar problemas, tentaremos ir além do apoio maciço a grupos organizados que estejam prontos para trabalhar o tempo todo”.
Envolverde/IPS