O jovem "X", 27 anos, todos os meses é responsável por sacar a aposentadoria da avó. O ritual geralmente acontece no horário do almoço. O rapaz que trabalha como vendedor numa loja de roupas retira R$ 500 e leva para a pensionista de 78 anos. O procedimento seria igual ao de milhares de brasileiros, senão fosse uma diferença básica: o dinheiro é sacado num ponto de jogo do bicho, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
O vendedor, que teme se identificar, afirma que sua avó é uma "pensionista" da contravenção. Segundo ele, há cerca de 10 anos o avô morreu e deixou o benefício programado. - Meu avô trabalhou na contabilidade do jogo do bicho durante pelo menos 30 anos, depois disso se aposentou e acabou morrendo. A família pensou que teria que arcar com as despesas da vovó, mas foi informada da pensão - relatou.
O avô nunca contribuiu com a Previdência Social, de acordo com o jovem, mas recebia R$ 1,5 mil de aposentadoria da contravenção todos os meses. Para o rapaz, a maior vantagem, além de não precisar contribuir, é receber em dinheiro sem as filas e burocracias bancárias.
Outras 14 pessoas contaram histórias semelhantes à de "X" sobre pensões e aposentadorias. Elas temem perder os benefícios caso a polícia combata os jogos ilegais com rigor.
Segundo fontes ligadas à contravenção, apenas mulheres de integrantes de "alta patente" têm direito a pensão. As demais chegam a ganhar uma contribuição alguns meses após a morte do marido, mas em seguida o benefício é cortado.
A estimativa de funcionários de pontos de jogo do bicho é de que pelo menos 50 viúvas estejam recebendo pensão somente em parte da zona norte do Rio, incluindo bairros como Méier, Cascadura, Madureira, Vaz Lobo e Irajá.