Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

BH sofre invasão de transporte clandestino

Sexta, 09 de Janeiro de 2004 às 01:46, por: CdB

O transporte clandestino urbano, nos moldes usados pelos perueiros no ano 2000, mas desta vez travestido de carros comuns, está de volta. Discretos e ousados, os clandestinos desafiam a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), recolhendo passageiros em plena Avenida Afonso Pena e nas principais vias da Região Centro-Sul da capital.

A própria BHTrans admite a existência da ilegalidade e tem registrada doze placas de carros que trafegam na área central. Na manhã da última quinta-feira vários motoristas de veículos particulares abordando pessoas em pontos de ônibus, oferecendo o serviço, cobrando o R$ 1,45. E o que não faltava eram passageiros.

Debaixo de uma chuva fina, sem tempo ou paciência para esperar o ônibus - em intervalos maiores em função da redução do quadro de horário no período de férias - alguns dos passageiros que embarcavam nos veículos demonstravam intimidade com os motoristas.

- O patrão não quer nem saber se tem ônibus ou não. Exige que a gente chegue na hora - justifica a secretária Cássia Terezinha de Castro, 28 anos, ao embarcar no Santana cinza, que por R$ 1,45 a deixaria, em no máximo dez minutos, na porta do prédio da Rua do Ouro, no Bairro Serra, onde trabalha. Na disputa pelos passageiros vale tudo.

Bem vestida, a motorista de um Pálio, estacionado em direção à Rodoviária, atravessa a avenida em busca dos dois passageiros que faltavam em seu veículo para percorrer, mais uma vez, a Avenida Afonso Pena até o Instituto Hilton Rocha, itinerário da linha Mangabeiras.

Desconfiado, o motorista do Monza cinza, placa GKW-8400 deu três voltas no quarteirão, passando bem devagarzinho em frente ao ponto de ônibus lotado, mas sem gritar o seu destino, como faziam antigamente seus colegas perueiros, até os passageiros se aproximarem dele e receberem a confirmação com um leve aceno da cabeça que ele estava seguindo para a Serra.

Ele abre a porta do veículo e a reportagem também embarca para cumprir parte do trajeto. O veículo desloca para a pista do meio, segue a Avenida Afonso Pena até a Rua Pernambuco, contorna a Rua Aimorés até alcançar a Avenida Brasil e por fim a Rua do Ouro.

Já na Serra, explica o motorista, o itinerário varia de acordo com a conveniência do freguês e o rigor da fiscalização.
 
- A gente tem que ficar esperto com a fiscalização. Os homens estão em cima e aparecem quando a gente menos espera - disse.

 Apesar de velho, o carro é eficiente e cumpre o trajeto em tempo bem inferior ao que levaria o ônibus, com as paradas eventuais para embarque e desembarque de passageiros nos pontos.

O ponto final é em frente ao Hospital Evangélico. Geralmente ele retorna vazio para o centro para cumprir nova viagem, arrecadando no mínimo R$ 5,80 no trajeto. Na pressa, os passageiros sequer cogitam utilizar o cinto de segurança. A movimentação dos clandestinos prossegue durante toda manhã com a mesma discrição.

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