Fiel ao seu estilo, o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, recusou-se na sexta-feira a recuar na polêmica em que se envolveu por ter comparado um político alemão a um carcereiro nazista em um filme, episódio que ofuscou a estréia italiana na presidência semestral da União Européia. O comentário de Berlusconi foi feito na quarta-feira, durante debate no Parlamento europeu. O chanceler (primeiro-ministro) alemão, Gerhard Schroeder, exigiu desculpas e conversou com Berlusconi na quinta-feira. Em seguida, Schroeder disse que o incidente estava superado, mas na sexta-feira Berlusconi retomou a polêmica. - Não pedi desculpas. Falei da minha tristeza a respeito de um comentário que foi mal interpretado, mas que era para ser apenas um comentário irônico - disse Berlusconi em entrevista coletiva em Roma, após reunião com a Comissão Européia, poder executivo da UE. - Lamento ter ofendido a sensibilidade de alguém, mas a sensibilidade não pode ser uma rua de mão única - acrescentou, sentando ao lado do presidente da Comissão, Romano Prody, que ficou de cara amarrada e nada disse a respeito da polêmica. O governo alemão reagiu afirmando que não tem nada a acrescentar ao que já foi dito e que o próprio Berlusconi havia considerado o caso encerrado. O Parlamento Europeu, porém, continua exigindo desculpas e uma explicação, e a imprensa do continente está indignada. - Berlusconi estará de agora em diante sob intensa vigilância de seus pares e das instituições da UE - afirmou John Palmer, diretor do Centro de Política Européia, uma entidade independente. Prodi e os demais comissários (ministros europeus) foram a Roma para discutir o ambicioso projeto italiano na presidência da UE, iniciada na terça-feira e já completamente ofuscada pelas declarações de Berlusconi. Durante o debate de quarta-feira, o eurodeputado social-democrata Martin Schulz mencionou o conflito de interesses decorrente do fato de Berlusconi ser primeiro-ministro e ao mesmo tempo um magnata das comunicações. Ele também criticou a recente lei que garantiu imunidade ao primeiro-ministro em um julgamento por corrupção. - Ressaltei a Schroeder que fui gravemente ofendido, e também o meu país - disse Berlusconi a jornalistas, antes de iniciar uma longa explicação sobre o papel que tinha em mente para Schulz, o mesmo nome do guarda de um campo de concentração na série cômica norte-americana Guerra, Sombra e Água Fresca, produzida na década de 1960. Ele acrescentou que tem "profundo apreço e respeito pelo Parlamento Europeu". Para o presidente do Parlamento Europeu, Pat Cox, um simples telefonema de Bersluconi a Schroeder não basta para encerrar o imbróglio. - O incidente aconteceu no plenário do Parlamento Europeu (que fica em Estrasburgo, França), não em Berlim. É necessário um esclarecimento de Berlusconi junto ao Parlamento para encerrar o assunto - afirmou. Em uma carta aberta, o ministro italiano para as Relações Parlamentares, Carlo Giovanardi, revidou dizendo que quem precisa pedir desculpas são Schulz e Berlusconi. - Nosso primeiro-ministro já expressou arrependimento pelas palavras que disse. Mas me parece que nem Schulz nem o senhor (Cox) expressaram uma palavra de arrependimento pelos insultos - escreveu Giovanardi. A polêmica deu mais munição para os colunistas de jornais da Europa, em geral já bastante céticos quanto às credenciais morais de Berlusconi para presidir a UE. O jornal alemão Sueddeutsche Zeitung, liberal, disse que "dificilmente ele teria dado melhores provas para todos os julgamentos negativos e preconceitos contra ele". O direitista Le Figaro, da França, disse que Berlusconi mostrou "uma deplorável imagem da Itália no exterior." O conservador Times, britânico, foi um dos poucos meios a aliviar a culpa de Berlusconi. Para o jornal, a polêmica foi "totalmente artificial", e Schroeder praticou "uma exploração calculada da impopularidade do Signor Berlusconi" para fortale
Berlusconi diz que não se arrepende de gafe com alemães
Sexta, 04 de Julho de 2003 às 17:36, por: CdB