Coglioni é um termo vulgar, chulo, mas foi usado pelo primeiro-ministro Silvio Berlusconi para desabonar seus adversários. A palavra, no entanto, saiu dos bares e chegou às salas de estar da Itália por meio da televisão, detonando um debate nacional antes das eleições gerais do final de semana. O efeito foi semelhante ao provocado nos EUA, em 1998, quando "sexo oral" e todos os seus eufemismos tornaram-se um tópico corrente em meio ao escândalo envolvendo o então presidente Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky.
Berlusconi, durante um pronunciamento feito para um grupo de lojistas, usou a palavra coglioni (testículos, literalmente) para referir-se aos eleitores de centro-esquerda. Na Itália, o termo é utilizado para dizer que alguém não é muito inteligente. As traduções comuns para coglioni, nos dicionários, abarcam palavras como "idiota," "imbecil", "retardado" e "abestado."
- Alguém pode, certamente, falar isso na esfera privada, mas não quando se está sendo filmado em público. Se Blair (Tony Blair, primeiro-ministro da Grã-Bretanha) ou Bush (George W. Bush, presidente dos EUA) disserem que qualquer um que votar contra seus interesses é um 'estúpido', não acredito que ninguém, entre aliados ou oposicionistas, acharia que isso é apropriado - disse James Walston, diretor do departamento de Relações Internacionais da Universidade Americana de Roma.
Âncoras
E assim a palavra coglioni foi repetida várias vezes no horário nobre de TV, nesta quarta-feira, por âncoras de jornais que tentavam manter-se compenetrados e não ficar vermelhos ao pronunciar algo que ainda leva estudantes do país para a sala do diretor. A palavra saiu impressa na primeira página de quase todos os jornais italianos. Um apresentador encarregado de ler as manchetes em um canal de TV do país pediu desculpas a seus telespectadores por ter de repetir o termo àquela hora da manhã.
Na charge de um jornal de circulação nacional, um entrevistador de um instituto de pesquisa pergunta a um homem sobre sua intenção de voto afirmando: "Com licença, o senhor é um cogline"?
- Esse comentário é o fundo do poço. Acho que ele ofendeu todos os italianos - disse Maurizio Caprio, enfermeiro de um hospital.
Roberto Flamini, um taxista de Roma, afirmou:
- Eu não fiquei ofendido. Acho que o comentário revelou mais coisas sobre ele (Berlusconi) do que sobre os italianos.
A atual campanha política, na qual a centro-direita liderada por Berlusconi enfrenta a centro-esquerda encabeçada por Romano Prodi, vem se mostrando uma das mais acirradas das últimas décadas, e insultos foram atirados pelos dois lados.
- Em certa medida, ficamos menos surpresos (com os comentários de Berlusconi) porque houve muitas declarações feitas com palavras inapropriadas - afirmou Walston.
O pesquisador notou que Prodi havia classificado as declarações de Berlusconi de "balle" ("bobagens"") e tinha comparado o atual premiê a um "beberrão" e o ministro da Economia do país, Giulio Tremonti, a um "delinquente". Berlusconi, de outro lado, disse que Prodi era um "idiota útil", um "homem lamentável" e uma "fachada" para comunistas cujos companheiros na China de Mao Tsé-Tung já tinham "cozinhado bebês". Como disse o editorial de um jornal italiano na quarta-feira, o debate político no país havia descido ao nível das "discussões de caserna".