Rio de Janeiro, 21 de Abril de 2026

Benditas mulheres que ocuparam a Aracruz

Por Frei Pilato Pereira - A ocupação do horto florestal da Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro, no Rio Grande do Sul, por trabalhadoras camponesas ligadas aos movimentos da Via Campesina, foi notícia em toda a grande mídia brasileira e em jornais do exterior. Um mesmo fato foi visto (e mostrado) por duas óticas diferentes. (Leia Mais)

Sábado, 11 de Março de 2006 às 13:32, por: CdB

A ocupação do horto florestal da Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro, no Rio Grande do Sul, por trabalhadoras camponesas ligadas aos movimentos da Via Campesina, foi notícia em toda a grande mídia brasileira e em jornais do exterior. Um mesmo fato foi visto (e mostrado) por duas óticas diferentes. Por um lado, a crítica irracional e fanática, acusando que aquele era um gesto qualificado como baderna, terror e etc.

Mas, de um outro ângulo, há também a percepção do verdadeiro significado do ato acontecido no dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher. Boa parte da imprensa preferiu fazer um verdadeiro alarde e sensacionalismos, mostrando que se tratava de uma invasão e destruição de algo que poderia beneficiar a sociedade. Quando na verdade, o objetivo da ocupação era denunciar o impacto social e ambiental provocado pelo mono cultivo de eucaliptos.

As mulheres militantes da Via Campesina que entraram no horto florestal não foram para estragar, mas para evitar grandes estragos que já estão sendo causados pelo cultivo do eucalipto em algumas regiões. O deserto verde, formado pelas plantações do eucalipto, destrói o solo e consome uma enorme quantidade de água. E, além disso, que já é bastante, o mono cultivo do eucalipto é capaz de gerar apenas um emprego em cada 185 hectares de terra ocupada. Elas foram mostrar isso para a sociedade, foram fazer a denúncia do que realmente significa o cultivo do eucalipto que poderá transformar o pampa num deserto verde.

Uma reportagem de telejornal mostrou uma das pesquisadoras do horto florestal da Aracruz chorando, lamentando a "perda de 20 anos de pesquisa". Mas o que é verdadeiramente lamentável é que ela não tenha investido esses anos todos em pesquisas para a proteção da biodiversidade da natureza e da dignidade das pessoas. Preferiu trabalhar para o capital, para o agronegócio e não para a vida. A mesma pesquisadora, ao se referir ao fato da destruição do viveiro e laboratório da Aracruz, disse que não entendia aquela atitude e que gostaria de saber o que tinha no coração das pessoas que fizeram aquilo.

Podemos imaginar o que se passava no coração de quem teve a coragem de entrar lá e destruir o que fosse possível. É a preocupação com vida, é o medo de ver a natureza ser destruída em nome de um falso progresso. E como foi uma ação das mulheres camponesas, entendemos bem que se trata de uma atitude do instinto feminino e materno, um sentimento natural de proteger a vida de hoje e do futuro. Foi um gesto de quem se preocupa com os filhos (que já nasceram e que vão nascer). Certamente uma grande parte da opinião pública, por um tempo, vai estar se posicionando contra a ação das camponesas.

Mas, é preciso dizer que elas fizeram algo em defesa da vida. E seu gesto poderá não ser compreendido nos nossos dias, não por falta de motivo e sentido naquilo que elas fizeram, mas porque falta a capacidade mesmo de nossa sociedade compreender certas coisas. É impressionante como a sociedade do nosso tempo é incapaz de compreender gestos proféticos de quem luta pela vida. Mas, essa mesma sociedade será julgada pelas futuras gerações que, certamente, não aceitarão a forma de como a natureza é tratada nos dias de hoje.

As futuras gerações vão lamentar por tudo o que estamos fazendo contra a biodiversidade do nosso planeta, o único lugar que temos para se viver; vão lamentar também a incapacidade de muitos em compreender o gesto profético do dia 8 de março de 2006, em Barra do Ribeiro, no Rio Grande do Sul. As futuras gerações vão dizer:

"Benditas mulheres que ocuparam Aracruz".

Frei Pilato Pereira é articulista do Correio do Brasil.
Mensagens para o autor no endereço: pilato@terra.com.br

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