O Peru agora ingressa de verdade na América do Sul. Bienvenidos, hermanos.
15/06/2011
Igor Fuser
A vitória do candidato progressista no Peru, Ollanta Humala, não poderia ter vindo em melhor hora – justamente quando os EUA mobilizavam os governos direitistas da América Latina para reverter a perda de sua posição de hegemonia na região. Reunidos em Lima, no mês de maio, representantes do Chile, Colômbia, México e Peru assinaram o Acordo do Pacífico, em que se comprometem a proteger os interesses das empresas multinacionais.
Esses quatro países vinham atuando como uma muralha contra os ventos progressistas que sopram nesta parte do mundo a partir da eleição de Chávez, em 1998. Desde então, a maioria dos países da América do Sul elegeram presidentes que têm em comum a busca de maior autonomia perante os EUA e algum grau de identificação com as aspirações populares.
O Tio Sam demorou, mas resolveu reagir. O golpe em Honduras foi a senha para uma contra-ofensiva na qual se insere a campanha de difamação lançada, inutilmente, para desqualificar Humala. Não foi por acaso que, nas vésperas da eleição peruana, reapareceu a figura sinistra de Roger Noriega, antigo responsável pelos assuntos latino-americanos do governo do Bush Jr., acusando o candidato de receber dinheiro venezuelano. Uma denúncia furada, sem provas, mas que ainda assim mereceu destaque na reportagem do enviado especial do Estadão a Lima... Fernando Gabeira, o tucano verde.
Todos os sinais indicam, contudo, que as mudanças no cenário regional são irreversíveis. No Equador, um referendo deu sinal verde para as iniciativas progressistas do presidente Correa, tais como proibir que os banqueiros sejam donos de empresas de mídia. Já a Bolívia fará em breve a primeira eleição popular para a cúpula do Poder Judiciário. E o presidente deposto Zelaya regressou a Honduras, nos braços do povo.
Humala, em seu primeiro discurso como presidente eleito, anunciou prioridade à integração regional. O Peru agora ingressa de verdade na América do Sul. Bienvenidos, hermanos.
Originalmente publicado na edição 432 do jornal Brasil de Fato