Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

Belo Monte confirma a energia da colônia

Quarta, 29 de Junho de 2011 às 09:20, por: CdB

Se a hidrelétrica de Belo Monte, a maior obra deinfra-estrutura em andamento no Brasil, é inviável, como apregoam os seuscríticos, por que o governo a aprovou, há empresas privadas interessadas nela etantos técnicos – e mesmo cientistas – se manifestam em defesa do projeto?

A resposta a essa pergunta fundamental serve de prova dosnove da operação. Muitos reagem com aprovação imediata à iniciativa. Afinal,ela não passou pelo teste dos engenheiros e matemáticos? Logo, temconsistência.

Tudo que é sólido, porém, se dissolve no ar, advertiu ofilósofo da crítica radical (aquela que pega os fatos por sua raiz). Belo Montepode se enquadrar nesse truísmo. Mas para que a sua equação funcione, é precisoque a incógnita permaneça irrevelada até o fim, fim esse que corresponde aofato consumado, ao leite derramado, à morte de Inês no poema formador dalíngua, agora em processo de deformação.

Essa incógnita é o governo. Belo Monte devia fazer parte deuma nova família, criada pela política de privatização do Estado dossocial-democratas tucanos e mantida, com atualizações e adequações, pelosantigos jovens turcos petistas (hoje mais para nouveaux riches, quando nãoarrivistas). O Estado recuaria para a função reguladora e as empresasparticulares assumiriam a vanguarda do processo econômico. Colocariam no jogo oque é sua razão de ser (e, por suposto, sua supremacia): o capital de risco.

Mas metade das ações da Norte Engenharia, que já começou aconstruir a usina de Belo Monte, no rio Xingu, é da Chesf, a empresa federal deenergia do Nordeste. Estatais e fundos de previdência são também os maioresacionistas das empresas que constroem as hidrelétricas de Jirau e SantoAntonio, no rio Madeira, em Rondônia.

Ao invés de assumirem o comando das obras, as empresasprivadas retroagiram à sua função original, de empreiteiras, conforme o velhomodelo capitalista, refinado durante o regime militar (1964-85). Algumas delas(nem sempre as principais) mantiveram participação no capital dasconcessionárias de energia para atuar com mais desenvoltura no futuro, quando oinvestimento estiver amortizado e for o momento de faturar tarifas das maiscaras do planeta.

Não podia ser de outra forma? Na ótica delas, não. Em 10anos, o orçamento de Belo Monte saltou de 10,4 bilhões para 31,2 bilhões dereais. Quanto será o valor de chegada? No caso da hidrelétrica de Tucuruí, quedeu a partida com 2,1 bilhões de dólares,o custo final ultrapassou US$ 10 bilhões. No orçamento de Belo Monte nãoestá incluída a linha de transmissão (que, na melhor das hipóteses, sairá pormais de dois terços da obra de geração) e alguns outros itens milionários.

Uma das causas dessa triplicação entre 2001 e 2011 é acomplexidade do projeto de engenharia. Originalmente, o projeto seguiria oesquema convencional. Como alagaria área enorme e precisaria de mais de umbarramento rio acima, provocou grande reação na opinião pública. Para não criargrandes reservatórios, o desenho foi modificado.

O tamanho da área de inundação diminuiu significativamente,mas teve efeitos adversos. Sem retenção de água, a usina passará a funcionarcom água corrente. Como no verão a vazão do rio é mínima, a hidrelétrica ficaráparalisada durante três ou quatro meses. Com isso, a média de energia quepoderá gerar estará abaixo de 40% da sua capacidade nominal. Isto significa kWmais caro. Muito mais.

Além disso, um complicado sistema de diques terá que serconstruído para manter a vazão lateral do rio até a casa de força, onde estarãoas 20 enormes turbinas. Diante da complexidade do desafio, ninguém poderágarantir que não haverá vazamento. Será mais um fator de perda de energia acomplicar a viabilização do negócio.

Para que o projeto não fosse à ruína, além de assumir ocontrole acionário da empresa responsável pela obra, o governo garantirá ofinanciamento. O BNDES se comprometeu a entrar com 80% do custo de Belo Monte.Como é uma despesa gigantesca, o dinheiro sairá do caixa do tesouro nacional,fonte de R$ 200 bilhões incorporados ao banco nos últimos dois anos (recorde emtodos os tempos). Se o equilíbrio financeiro ficar ameaçado ou forcomprometido, sabe-se de onde virá a salvação.

Trata-se mesmo de uma tarefa salvífica, missionária. É o queexplica o desdém de todos os participantes do projeto pelas exigências préviaspara o licenciamento ambiental. A licença foi dada mesmo com ao óbviodescumprimento das cláusulas acertadas com o Ministério Público Federal. Apresunção é de que o governo, grande ausente na área, agitada pela iminência dagrande obra, surgirá de súbito para fazer o que não foi feito. A fundo perdido.

Sua atitude não será a socialização dos prejuízos eprivatização dos lucros, tão reprovável quanto contumaz? Talvez seja, mas parao governo o que importa é a meta traçada no novo Plano Decenal, apresentado nofinal do mês passado: extrair da Amazônia, em 2020, 23% das necessidadesbrasileiras de energia. A participação atual da região é de 10%.

Se acontecer esse incremento, de 265%, com a oferta de mais28 mil megawatts extraídos dos rios amazônicos, as participações das demaisregiões cairão: do Sudeste/Centro-Oeste, de 60% para 46,6%; e do Sul, de 16%para 14% (apenas o Nordeste terá um ligeiro aumento, de 14% para 17%).

A Amazônia se tornará, de vez, na grande provínciaenergética brasileira. Cederá a força motriz da sua bacia hidrográfica, a maiordo mundo, para ser transformada em produtos acabados a milhares de quilômetrosde distância. Não era exatamente esse o paraíso vislumbrado por Euclides daCunha um século atrás. Mas seu vaticínio se realizará: será um paraíso perdido.Pobre Amazônia rica.

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