Recomendo a leitura, no Valor, da matéria “Câmbio valorizado mostra fragilidade na crise, avalia Belluzzo”. Nela, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo não descartada a importância de uma brusca desvalorização do real. Ele pondera, entretanto, que a ação desencadearia ao menos duas repercussões no contexto atual, em que o câmbio desfavorece as exportações brasileiras. De um lado, certamente encareceria os produtos importados imediatamente. De outro, oneraria pesadamente os empréstimos externos tomados pelas empresas brasileiras.
Da Itália, onde deu sua entrevistas, Belluzzo comentou os impactos do resgate à Grécia, cuja dívida bruta está próxima de 120% do seu Produto Interno Bruto (PIB). Para ele, o episódio incutiu entre os países ricos a errônea percepção de que cortes de gastos seriam necessários para escapar de um estresse do mercado financeiro e da possibilidade de calotes.
"Os europeus estão perplexos com o que está acontecendo, eles não têm nenhuma experiência com esse tipo de situação, que é mais comum em países pobres", afirmou o economista. Para ele, até a Alemanha, único país ainda dinâmico na União Europeia, graças às exportações, não resistiria a um aperto coletivo na política fiscal, porque ficaria sem mercado. Na sua avaliação, o quadro seria ruim para o Brasil, já que secaria o impressionante fluxo de capitais externos que tem se dirigido para cá, principalmente no último semestre.
A missão da equipe econômica no Brasil
A propósito, Belluzzo acredita que o governo brasileiro simplesmente "não tem como evitar o enorme fluxo de capitais que chegou e chega ao Brasil". Nesse contexto complexo, a missão da equipe econômica brasileira, passaria por evitar que uma turbulência muito séria nos países ricos levasse à uma “desvalorização absurda do real”.
Belluzzo ressalta que o elevado nível de reservas acumulado pelo BC - US$ 340 bilhões (dos quais cerca de US$ 220 bilhões aplicados em títulos públicos americanos) - e a dívida bruta em torno de 55% do PIB, por enquanto, deixam o Brasil em situação confortável.
Mas acha que o governo não deveria ter permitido uma valorização tão excessiva do real. Ele teme que, no momento em que o fluxo de capital do exterior se reverter haverá um baque tanto no modelo atual de crescimento, quanto no de controle de inflação, via ingresso de bens importados.
UE erra com sua política fiscal
Interessante a análise do economista em relação à União Europeia. Para ele, o velho continente revive o que a América Latina passou entre o fim da década de 80 e o início dos anos 90. O professor considera errada uma política fiscal mais apertada para os europeus, pois ela só faria sentido em tempo de bonança. “Não é o caso”, descarta. Belluzzo defende que tanto os europeus quanto os norte-americanos precisam resolver o alto desemprego, principal problema da economia real. Para ele, esse combate só é possível via crescimento econômico.
Didaticamente, Belluzzo lembra que a crise fiscal americana é o reflexo da crise financeira privada, desencadeada pela falência de grandes bancos de investimento, em 2008. E ressalta que o governo Obama gastou a política fiscal na salvação do sistema financeiro, mas que acabou sendo tímido no incentivo ao crescimento. O economista conclui frisando que novos cortes nos programas sociais nos EUA representarão mais irresponsabilidade e timming errado.
Belluzzo vê erro na condução da política fiscal da UE
Segunda, 25 de Julho de 2011 às 06:37, por: CdB