Rio de Janeiro, 07 de Fevereiro de 2026

Bebendo um bom vinho

Normalmente, quando paro para apreciar um bom vinho, sentada em minha varanda, tenho o hábito de reunir minhas literaturas sobre esta bebida. Durante quatorze anos venho me envolvendo nesse agradável romance com o vinho. Quase que por acaso, fui me chegando a esse mundo, clássico, e de uma natureza harmoniosa, que em cada degustação de maneira única e especial, nos leva a lugares e sensações nunca antes percebidos, que sempre estiveram diante de nós, mas nunca foram provocadas. (Leia Mais)

Quarta, 25 de Julho de 2007 às 06:39, por: CdB

Normalmente, quando paro para apreciar um bom vinho, sentada em minha varanda, tenho o hábito de reunir minhas literaturas sobre esta bebida. Durante quatorze anos venho me envolvendo nesse agradável romance com o vinho.

Quase que por acaso, fui me chegando a esse mundo, clássico, e de uma natureza harmoniosa, que em cada degustação de maneira única e especial, nos leva a lugares e sensações nunca antes percebidos, que sempre estiveram diante de nós, mas nunca foram provocadas.

Nosso modo de entender muda, de perceber ganha novas nuances. A personalidade do vinho se mistura a nossa própria personalidade e inaugura-se um novo tempo.

Foi assim que fui crescendo com o vinho, ou melhor, evoluindo. Nesse período todo de guarda fui acrescentando rótulos e sensações a meus sentidos. A visão passou a ser límpida. O olfato ganhou frescor de chuva, de terra molhada, buquê de flores brancas. O paladar foi presenteado com a simplicidade da essência da harmonização, deleites inesquecíveis. A audição ganhou graça, nos inumeráveis sons de taças unidas brindando excelentes momentos entre amigos. O vinho une pessoas a pessoas, mas também nos traz para perto de nós mesmos.

Ao completar minha taça com um pouco mais de um estonteante Cabernet Sauvignon 1999 da Casa Valduga, minha preciosa última garrafa, concluí que nunca mais pude olhar para uma taça de vinho sem, no meu íntimo, analisá-la. Era um vinho vermelho rubi, com reflexos granada, límpido, devidamente decantado, com arcos grossos, escorregando com autoridade de um bom corpo. Possuía um complexo bouquet, intenso em seus aromas terciários, com taninos suaves.
Equilibrado e robusto.

Folheando algumas revistas, encontrei um assunto muito polêmico, mas de grande curiosidade. Será que realmente é verdade que o nosso vinho é melhor para o coração do que os vinhos estrangeiros, ou essa informação é só marketing?

As substâncias que ajudam o coração e diminuem o risco de enfartes são os polifenóis e dentro destes há o grupo dos estilbenos (o mais famoso estilbeno é bem conhecido - o resveratrol). Os estilbenos são absorvidos pela corrente sanguínea transformando o LDL (colesterol ruim) em HDL (colesterol bom).

Esse tipo de polifenol é a principal defesa natural que a uva cria para proteger-se dos fungos. E como o Brasil tem um sério problema de fungos, a nossa uva tem mais estilbenos que as que produzem os vinhos na maioria das outras regiões vitivinícolas do mundo. Dessa forma o fungo, que é um drama para o viticultor, torna o nosso vinho especial para o coração. Se o produtor conseguisse fazer o fungo não destruir a produção de seu vinhedo, a uva bem cuidada que sair
do vinhedo será a melhor para saúde do que as plantadas em lugares sem tantos transtornos e dificuldades.

Faço aqui, em minha primeira coluna no Correio do Brasil, um brinde a esses viticultores, produtores antes anônimos, e que, hoje, fazem parte de um cenário nacional, onde apesar dos fungos, estão fazendo a diferença no mundo do vinho.

Catia de Melo Silva
Membro da Association de La Sommellerie Internationale - ASI
e-mail: catiademelosilva@globo.com

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