Na base aliada, quanto mais recente o intervalo entre as votações, maior é a queda no prestígio do presidente de facto, Michel Temer
Por Redação - de Brasília e São Paulo
Prestes a votar a reforma da Previdência, a base aliada ao governo instaurado após a deposição da presidenta Dilma Rousseff está cada vez menor. Pesquisa realizada por um dos diários conservadores paulistanos mostra que a traição entre os deputados federais tem sido cada vez frequente. Se em julho do ano passado a média de apoio ao governo na Câmara dos Deputados chegava a 91% — maior índice sustentação ao governo já registrado desde 2003—, em abril deste ano essa taxa caiu para 79%. A queda, ao longo do período, chega a 12 pontos percentuais.
Dados coletados durante as votações nominais ocorridas no Congresso, comparados aos votos dos parlamentares, mostram que as reformas da Previdência e trabalhista estão com telhado mais curto após governo pós-golpe de Estado. A ruptura do Estado democrático, no país, acaba de completar um ano.
Segundo a pesquisa, quanto mais recente o intervalo analisado, maior é a queda no prestígio do presidente de facto, Michel Temer. Nas primeiras 20 votações nominais, de acordo com o levantamento, 92% dos deputados seguiram orientação do Planalto. Já nas 20 mais recentes, apenas 68% repetiram o voto.
Denúncias
O exemplo mais recente ocorreu na votação, em Plenário, do regime de urgência da reforma trabalhista, na quarta-feira. Apesar da manobra regimental, que garantiu a pauta, no escrutínio inicial a derrota foi flagrante. Outra votação frequentemente citada como sintomática dessa perda de influência ou comando na Câmara pelo governo foi a rejeição da Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que autorizava a cobrança de mensalidades em universidades públicas para cursos de especialização.
Na votação relativa à reforma trabalhista, o governo obteve 287 votos a favor, apenas 30 a mais do que o necessário para passar a proposta. Um dia antes, a mesma proposição havia sido rejeitada: teve, então, 230 votos favoráveis (quando precisava de 257) e 163 contrários. No caso da PEC das universidades, ela precisaria da aprovação de três quintos, ou 308 deputados, para passar.
Para a professora Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), a dificuldade do governo em conseguir maioria e a perda de apoio a Temer são crescentes. Para ela, essa dificuldade pode ser associada principalmente a alguns fatores.
Tendência
Um deles é o cada vez maior número de denúncias ligadas à Operação Lava Jato e a lista do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin, que liberou a investigação a ministros e líderes da base do governo.
— Também está relacionada com isso a decrescente popularidade do governo e o contexto econômico que não ajuda muito, com desemprego em expansão — diz Maria do Socorro, a jornalistas.
Ela faz a ressalva de que, na economia, o único indicador que ajuda um pouco o Executivo é a inflação. Neste quesito "conseguiram manter um patamar razoável".
— Porém, quanto maior for a pressão da sociedade civil, se ela tiver capacidade de aumentá-la, a tendência é eles mudarem várias questões da reforma da Previdência. Eles estão pressionados pelos dois lados: pelas denúncias e pela sociedade civil. Por isso está difícil para o governo. Não vai ser tão tranquilo como Temer achava que seria — acrescenta a cientista política.
Temática delicada
Na opinião do coordenador da pós-graduação de Ciências Políticas da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), Humberto Dantas, a dificuldade de Temer se relaciona à complexidade das temáticas da Previdência e trabalhista.
— Lembremos que governos anteriores também tiveram dificuldades em questões relacionadas à reforma da Previdência. É um tema muito delicado para os governos, muito heterogêneo do ponto de vista de realidades sociais com as quais os deputados dialogam. São 513 visões distintas de percepções acerca de realidades sociais do país. Até mesmo os partidos têm dificuldade de domar suas bancadas — avalia.
Para Dantas, a questão é saber o quanto o governo se expôs. E o quanto se esforçou na votação da urgência da reforma trabalhista na última semana. Em sua opinião,Temer pode estar jogando de forma pragmática, esforçando-se para conseguir o necessário.
Calendário eleitoral
— A metáfora do futebol aqui é interessante. Não é porque o Palmeiras é oito vezes melhor que ganha do São Bernardo de 8 a 0. Mas ganha do São Paulo e do Santos. Ainda há poucos elementos para dizer que o governo perdeu força no Congresso. Mas tenho absoluta convicção de que ele tem seríssimas dificuldades com a Previdência. Este é um tema extremamente delicado em termos históricos — afirma.
O governo queria votar a reforma da Previdência rapidamente. Mas tem recuado em alguns tópicos para tentar salvar a PEC 287 na Câmara. Também, para conseguir a difícil tarefa de conseguir 308 votos e salvar o texto.
Um outro fator contra as pretensões de Temer, para o cientista político da Fespsp, é o calendário eleitoral.
— Os parlamentares já estão olhando para 2018. Estamos às vésperas de um ano eleitoral, em que o deputado precisa se reabilitar. Mas não fiquemos com a impressão de que isso faz parte da mediocridade brasileira. Funciona assim em qualquer país do mundo — conclui.