No País com a maior reserva de água doce do mundo, nem todos conseguem matar a sede. Abrir a torneira, um ato tão trivial, parece coisa de outro mundo em muitos lugares do Brasil.
Uma proposta nascida do Instituto Ethos e costurada entre a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e a Articulação no Semi-árido Brasileiro (ASA), conseguiu, em pouco mais de um ano, melhorar a vida de 10.439 famílias, o que equivale a cerca de 50 mil pessoas. A ASA é um fórum formado por cerca de 750 organizações da sociedade civil (como igrejas, sindicatos e ONGs) voltado ao desenvolvimento na região.
Na quinta-feira 28, será lançada em Serrinha, interior da Bahia, a segunda fase da parceira, na qual serão investidos R$ 13 milhões. Representantes dos principais bancos do País enfrentarão o calor nordestino para prestigiar o evento.
A ASA tem como principal proposta amenizar os efeitos da seca na região (delimitada por 11 estados, entre o Espírito Santo e o Maranhão, e da qual fazem parte 4 mil municípios). O Programa por 1 Milhão de Cisternas (P1MC) prevê, dentro de cinco anos, que sejam beneficiadas 5 milhões de pessoas. Para isso, conta com vários parceiros, entre eles a Febraban e o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Estima-se que nessa região (com superfície do tamanho da Alemanha e da França juntas) vivam 18 milhões de pessoas. Perto de 8 milhões habitam a zona rural e dois terços estão distantes a pelo menos uma hora de uma fonte de água.
Em 2003, pouco depois de o Programa Fome Zero ser inaugurado, Oded Grajew, presidente do Ethos e na época assessor da Presidência, conversou com representantes dos bancos, como Fábio Barbosa (presidente do ABN Real) e Gabriel Jorge Ferreira (do Unibanco, na ocasião à frente da Febraban) sobre a possibilidade de uma parceria. Em vez de articular a dobradinha por meio do Ministério, Grajew preferiu aproximar a ASA e a federação.
- Avaliei que seria melhor um engajamento da Febraban em um projeto transformador. Com a construção das cisternas, era possível mostrar algo concreto - conta o presidente do Ethos. Hoje, o apoio às cisternas é o maior projeto social da federação dos bancos.
Na primeira fase da parceria, foram investidos R$ 15 milhões. O valor foi rateado entre os bancos de acordo com o patrimônio de cada um. Há quem defenda que o montante é pequeno perto do fôlego financeiro. A Febraban, principal entidade do setor bancário, tem 129 associados, donos de 97,46% do total de ativos do sistema financeiro. Em dezembro de 2003, segundo dados da própria entidade, a soma de ativos de seus membros era de R$ 1,2 trilhão.
- O que conta é o impacto causado por essas cisternas e a infra-estrutura montada para outros projetos da mesma linha - disse Fábio Barbosa.
O investimento também foi em em infra-estrutura, com a compra de computadores para as 48 unidades gestoras. Cada cisterna - um reservatório de águas pluviais construído com placas de cimento - tem capacidade para acumular 16 mil litros de água, volume suficiente para abastecer por um ano uma família de cinco pessoas.
Um dos diferenciais do projeto é que as comunidades foram envolvidas. Todos os 400 pedreiros treinados repassaram seus conhecimentos para que as próprias famílias construíssem as cisternas. Em cada lugar surgiram líderes comunitários que, com a ajuda das unidades gestoras, aprenderam a trabalhar com orçamentos bem detalhados. A prestação de contas dos gestores é mensal e on-line. Como as compras são feitas nas próprias comunidades, movimentam o comércio local. Além disso, quem antes tinha de viver por conta da busca da água, passou a aproveitar melhor o tempo com atividades rentáveis, como o bordado e a agricultura.
Ao longo da implementação do projeto, quem teve a chance de percorrer o Semi-árido viu que a realidade dos moradores da região é bem diferente d