Rio de Janeiro, 10 de Fevereiro de 2026

Bandidos ameaçam retaliar megaoperações

Quarta, 08 de Agosto de 2007 às 07:39, por: CdB

Na investigação para chegar ao policial civil preso na manhã dessa terça-feira, acusado de informar traficantes da Rocinha sobre megaoperação na favela semana passada, os agentes descobriram planos audaciosos da quadrilha. Gravações telefônicas autorizadas pela Justiça mostram que os bandidos ameaçam mansões, escolas, prédios de luxo de São Conrado e até a residência oficial do prefeito Cesar Maia, caso a polícia adote na comunidade ação como a realizada no Complexo do Alemão em junho, quando 19 pessoas morreram.

A revelação aparece num diálogo entre um traficante e o inspetor Sérgio Luís de Albuquerque, 49 anos, preso nesta terça pela Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA) em seu apartamento, na rua Inhangá, em Copacabana. Na conversa entre o policial e o homem a quem tinha avisado da operação, o bandido reclama pelo fato de a Rocinha "não estar dando trabalho à polícia" e faz um alerta, em tom ameaçador: — Se esses caras 'quiser' esculachar a gente aqui, 'mermão', dou-lhe um montão de tiro pra dentro daqueles prédios lá de São Conrado. Aquelas 'mansão' que tem aqui, Colégio Americano. Aí quero ver, vamos mexer logo com a sociedade —. 

Sérgio tenta ponderar que, por ser na Zona Sul, uma ação na Rocinha não deve ser tão enérgica. E o criminoso responde ao inspetor: — A filha da apresentadora, de um montão de gente, mora, trabalha, estuda aqui do lado no Colégio Americano. Vê se tem tentativa de assalto, vê se tem tentativa de roubo, não tem nada disso... Tem as 'mansão' pra c. aqui. Cantor, atriz, tem do César Maia na Gávea Pequena, tem as 'mansão' no Joá. Quem é que rouba? Ninguém rouba. Aí bota outro comando aqui do jeito que tá falando aí e começa a ter um monte de assalto no pé do morro. A gente não trabalha pra polícia não, mas a gente evita dar trabalho pra polícia —.

Desde 2003 na Polícia Civil, o inspetor era lotado na 12ª DP (Copacabana), onde dava plantão e tinha pouco envolvimento com investigações. Domingo, o colunista Ricardo Boechat, de O Dia, revelou que a polícia já sabia que um agente de delegacia da Zona Sul era o responsável pelo vazamento. A relação de Sérgio com bandidos da Rocinha cresceu há quatro meses, de acordo com investigadores.

Os grampos revelaram que, depois de avisar sobre a operação e comemorar o fato de um paiol de armas não ter sido encontrado, o policial levou um traficante para almoçar em um restaurante de Copacabana.

— Trata-se de um traidor, e traidores têm de ser extirpados da corporação — afirmou o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame. O chefe da Polícia Civil, Gilberto Ribeiro, também criticou a postura de Sérgio: — Ficamos todos indignados e demos uma resposta hoje. Trata-se de um criminoso travestido de policial —. 

Quando os policiais da DRFA chegaram à porta do apartamento 901 do edifício 19 da rua Inhangá, Sérgio levou um susto. "Acorda, você está preso", comunicou o delegado Ronaldo Oliveira. O primeiro a entrar na residência foi o delegado-adjunto Maurício Demétrio, que ficou encarregado da Operação Iscariotes - referência à traição de Judas. O inspetor, já algemado, implorou: — Não faz isso comigo, doutor, pelo amor de Deus — implorou. 

Agentes iniciaram revista minuciosa e encontraram pistola, revólver, seis celulares, R$ 4,2 mil, quatro relógios, dois computadores, CDs, DVDs, documentos de uma financeira e várias fotos, inclusive do policial dentro da Favela da Rocinha.

Um Cherokee preto, ano 1997, que estava na garagem, foi apreendido. Seu outro carro, um Volvo, está na oficina. — Ele tem que escolher o lado que ele está. É um traidor da instituição que, além de estragar o trabalho, colocou a vida de colegas em risco — disse Ronaldo Oliveira, que vai indiciar o policial civil por associação para o tráfico de drogas.

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