Os principais bancos centrais do mundo uniram forças nesta quinta-feira para injetar bilhões de dólares nos mercados globais em um esforço dramático para estimular os empréstimos interbancários, congelados pela crise de Wall Street. Em um movimento surpresa, o Fed colocou mais US$ 180 bilhões à disposição dos bancos centrais ao redor do mundo para que eles possam emprestar recursos para os bancos comerciais locais, uma tentativa de aumentar a liquidez dos mercados.
Os bancos centrais, incluindo o Banco da Inglaterra e o Banco Central Europeu (BCE), também emprestaram capital extra em suas moedas locais, à medida que os mercados oscilavam observando uma rodada de fusões e aquisições entre as instituições financeiras e renovavam as preocupações sobre como a economia dos Estados Unidos vai lidar com a crise. Mercados de moeda em bom funcionamento, onde bancos emprestam capital de curto prazo uns aos outros para acertar as variações diárias de seus balanços, são cruciais para a operação adequada do sistema financeiro e da economia de um modo geral.
Os bancos ao redor do mundo têm respondido à restrição de crédito, estimulados pela migração de investidores para ativos seguros, como ouro e títulos públicos, através da injeção de capital nos mercados e de garantias verbais. Entretanto, o sucesso dessa estratégia tem sido limitado até agora. Analistas disseram que o capital extra acalmou o mercado, mas isso deve ser temporário.
Os bancos centrais do Japão e do Canadá também integraram a ação global, que funcionará até o fim de janeiro do ano que vem, e concordaram com as novas linhas de swap de dólar com o Fed, apesar de não terem anunciado planos imediatos para utilizá-las.
"Essas medidas, juntas com outras ações tomadas nos últimos dias individualmente por bancos centrais, foram planejadas para melhorar as condições de liquidez no mercado financeiro global. Os bancos centrais continuam a trabalhar juntos e vão dar os passos apropriados para lidar com as novas pressões", declararam os bancos centrais em um comunicado conjunto.
Crise de 29
A crise nos Estados Unidos, cujo capítulo mais recente foi a quebra do Lehman Brothers, quarto maior banco de investimentos daquele país, ainda está longe do fim, afirmam especialistas consultados nesta quinta-feira.
A falência do Lehman Brothers foi um capítulo à parte na porque o Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos Estados Unidos, não emprestou dinheiro para evitar a concordata do banco.
– O mercado entendeu isso como uma mudança de rota e se assustou com a decisão (do Fed) – explica Tharcisio Bierrenbach de Souza Santos, diretor do curso MBA da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) de São Paulo. Em março, o Fed emprestou dinheiro para que o banco JP Morgan comprasse o quase falido Bear Stern.
Segundo o professor Antonio Correa de Lacerda, do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), "a inadimplência no crédito afetou a saúde financeira dos bancos e isso desencadeou a crise na bolsa". A crise, lembram os especialistas, foi provocada por problemas no mercado imobiliário americano.
– Guardadas as devidas proporções, esta crise tem o tamanho e a gravidade da crise de 1929 – acredita Santos.
Ele explica que o mundo hoje está mais preparado do que na década de 30, quando a Bolsa de Valores de Nova Iorque quebrou.
– Hoje o mercado esta mais controlado, temos uma série de mecanismos para não deixar a situação se alastrar – afirmou.
A crise econômica, segundo especialistas, não tem hora para acabar. E, segundo o diretor da FAAP, a bolha norte-americana não é a única.
– Há situações semelhantes em diversos países da Europa, como a Holanda e a Inglaterra e até mesmo na Oceania, na Nova Zelândia e na Austrália – diz.
Mas como esta crise afeta o cidadão comum no Brasil? O economista Fabio Silveira, sócio-diretor da RC Consultoria, explica que por hora o país não está sentindo os efeitos da crise.
– O principal efeito é a queda de commodities, que não se reflete diretamente na economia real, só no mercado de exportações – ensina.
Para o professor da PUC, as bolsas de valores estimulam o crescimento e o surgimento das empresas e o movimento da economia acompanha seu ritmo.
– Uma crise profunda diminui a capacidade de expansão das empresas e, conseqüentemente, de gerar empregos – afirmou.