Países pobres que exportam banana, açúcar e algodão alertaram na sexta-feira que podem bloquear qualquer acordo da Organização Mundial do Comércio (OMC), caso suas demandas por uma fatia maior dos mercados globais não sejam atendidas. Numa mostra da complexidade da tarefa da OMC de atingir um acordo sobre o comércio global, um grupo que reúne países da África, do Caribe e do Pacífico (ACP) disse que as posições da União Européia (UE) sobre o açúcar, dos Estados Unidos sobre o algodão e dos produtores de banana da América Latina ameaçam seu sustento.
Os países da ACP são principalmente ex-colônias e têm acordos de exportação preferencial com a UE que estão ameaçados por possíveis cortes de barreiras ao livre comércio.
- Estamos começando a questionar fortemente o valor da OMC para países pequenos, vulneráveis e em desenvolvimento. Não vamos aceitar qualquer acordo em Hong Kong feito às nossas custas - disse o ministro da Agricultura da Mauritânia, Arvin Boolell, porta-voz da ACP para o açúcar, em um comunicado assinado durante o encontro da OMC em Hong Kong.
Os países da OMC lutam para progredir na problemática rodada de Doha de liberalização do comércio durante o encontro em Hong Kong, que termina domingo. Mais negociações são esperadas para 2006. As reformas do comércio agrícola global, necessárias para qualquer acordo, devem levar em conta a situação dos produtores pobres, que encontrarão dificuldades em competir nos mercados mundiais caso as tarifas caiam acentuadamente, dizem os Estados da ACP.
Em relação ao açúcar, o grupo afirmaz que seus Estados membros perderão 300 milhões de dólares por ano, se a UE levar a cabo planos de reformar sua política para o produto e cortar os preços pagos aos produtores, incluindo os exportadores da ACP. A recusa dos EUA de cortar os amplos subsídios que paga a seus agricultores para produzir algodão custa 540 milhões de dólares anuais aos cotonicultores africanos. Já os produtores de banana se dizem ameaçados por uma disputa entre Europa e América Latina.
A UE tem sido forçada pela OMC a reformar sua política de importação de bananas, e os países da ACP dizem que, como resultado, devem perder mercado para o produto mais barato de países da América Latina, como Equador e Honduras. Mas Honduras também ameaça não assinar um acordo da OMC até que os países latino-americanos e a Europa cheguem a um acordo para a redução das tarifas de importação de bananas. Representantes de oito países da América Latina encontraram-se com autoridades européias em reuniões paralelas em Hong Kong na quinta-feira, mas não conseguiram nenhuma concessão.