Balanço da Conferência de Viena sobre Aids
Por Rui Martins, correspondente em Genebra - O diretor da Unaids, o brasileiro Luiz Loures, ffaz um balanço geral da Conferência sobre Aids, em Viena, e responde questões relacionadas com a resistência da Igreja à prevenção do preservativo, sobre o resultado das pesquisas de vacinas contra Aids, trata da situação nos países africanos de língua portuguesa, da cooperação brasileira com os africanos e espera que o Brasil ajude a baixar os preços dos novos remédios contra a Aids, como ocorreu há dez anos.
Quarta, 28 de Julho de 2010 às 12:50, por: CdB
Terminada a conferência de Viena sobre Aids, é a hora do balanço e, embora existam resultados positivos, alguns aspectos negativos aparecem – embora Viena tenha uma posição estratégica para a Europa do Leste, onde as infecções com Aids aumentam, os países dessa região não se fizeram representar oficialmente.
Tirando-se o gel microbicida ou gelatina vaginal contra a infecção, não houve grandes novidades terapeuticas e, apesar de tantas expectativas, nada de novo surgiu das pesquisas sobre uma vacina contra a Aids.
Numa longa entrevista, na qual fala do papel pioneiro do Brasil e de sua cooperação com os países lusófono africanos, o brasileiro Luiz Loures, diretor de Unaids ou OnuSida, não descarta essas críticas, porém tem razões para ser otimista. Ele também trata da questão da Igreja, contrária à prevenção pelo preservativo.
O surgimento de novos remédios para o tratamento e manutenção em vida dos infectado com a Aids, faz os países se defrontarem com preços exorbitantes e o Brasil é chamado a agir, como há 10 anos, dentro da colaboração Sul-Sul.
ENTREVISTA COM O DIRETOR DA UNAIDS
Corrêio do Brasil – qual seria o balanço final da Conferência de Viena sobre Aids, tendo-se em vista a ausência dos chefes de Estado dos países do Leste, justamente onde os novos de Aids estão em aumento, e que não havia nada de importante a anunciar ?
Luiz Loures – Viena está na encruzilhada do Leste e Oeste e conferência estava bem localizada para mostrar as tendências atuais da doença ao nível global. Temos algumas notícias muito boas como a presença, por exemplo, do vice-presidente da África do Sul demonstrando uma mudança do país com relação à Aids, poderíamos até falar numa revolução, confirmando a decisão do novo governo disposto a adotar uma posição agressiva no combate positivo contra a Aids, tanto na prevenção como no tratamento, com metas muito ambiciosas, que potencialmente podem levar a mudanças em toda África e até mesmo ter repercussões globais.
Outra notícia importante é o microbicida, que pode ser positivo na redução do virus, um gel de uso vaginal, de controle portanto da mulher, ao contrário de todos os outros tipos de prevenção que ficam sob o controle do homem, como a camisinha. E a terceira é que, depois de uma pesquisa nos 25 países mais afetados por Aids, percebemos que os índices de Aids começam a baixar em 15 desses países, principalmente entre as pessoas mais jovens.
Entre as notícias preocupantes surge a tendência de redução dos fundos destinados à prevenção e controle da Aids, pela primeira vez nos 30 anos da epidemia. Outra má notícia é a de que existem agora maiores restrições aos portadores da doença e mesmo violação dos direitos humanos em relação às pessoas e grupos mais vulneráveis, como o dos homens homossexuais, na África e Europa do Leste, e em relação aos usuários de drogas na Europa do Leste. A terceira má notícia foi uma presença bem aquém do esperado das autoridades representantes da Rússia, Ucrânia, países da Europa do Leste e Central, focos dessa conferência.
Corrêio do Brasil – E com relação à Africa do Sul, cujo presidente desdenhava os riscos da Aids, houve, então, uma mudança importante ?
Luiz Loures – É uma mudança muito significativa. Levando-se em conta que a África do Sul é o país mais afetado da África com a Aids e levando-se em conta a influência regional da África do Sul, uma mudança nesse país pode ter repercussão em todo o continente, em termos de compromissos maiores da parte dos líderes africanos. Agora está reunida, em Kampala, a cimeira dos países da União Africana, e esperamos que o presidente Zuma reafirme o novo compromisso da África do Sul com relação à Aids, cujas metas são ambiciosas e contam com o apoio da Unaids.
Corrêio do Brasil – Falava-se muito na esperança de uma vacina contra Aids, testes estavam sendo feitos na Tailândia e experiências vinham sendo feitas na Tanzânia e mesmo no Brasil. Perderam-se essas esperanças ?
Luiz Loures - Não, mas as perspectivas de uma vacina ainda são relativamente distantes. É uma pesquisa difícil e, na minha opinião, os fundos para isso são insuficientes. Teria de haver investimentos maiores, e resumindo-se, não se pode contar com uma vacina neste momento. A questão da prevenção da Aids tem de ser revista, não se tem feito tudo quanto se poderia e é por isso que a Unaids, em Viena, chamou pela prevenção, a fim de tentar obter a mesma mobilização feita, há alguns anos, em relação ao tratamento. A Unaids lançou, em Viena, uma comissão de alto nível para cuidar da mobilização e prevenção, que não é científica mas política, presidida e coordenada pelo bispo Desdemond Tutu; com a francesa Françoise Barré-Sinoussi, uma dos descobridores do virus da Aids, prêmio Nobel; e com presenças políticas bem significativas como a ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet; do ex-presidente do Botsuana, mais personalidades do mundo artístico ou de outras atividades, como Chris Hughes, que iniciou o Facebook. Esperamos que essa comissão consiga tirar a prevenção do científico para vir ao nível público.
Corrêio do Brasil – e como vê a posição contrária da Igreja a certos tipos de prevenção como o preservativo ?
Luiz Loures – Igreja é um conceito muito amplo. Em Viena, houve uma marcha, com mais de 20 mil pessoas, da qual participei ao lado dos chamados grupos da fé, da Igreja. Há aspectos diferenciados, por exemplo, os grupos de igreja não católicos têm posições muito avançadas, inclusive em relação aos preservativos, como os protestantes e os anglicanos. Acho que existe um debate dentro das igrejas, muito positivo no sentido de avançar. Alguns setores têm posições mais difíceis com relação com uso do preservativo, porém são mais abertos no tratamento e nos cuidados das pessoas com Aids e muitas organizações católicas têm cumprido esse papel na África, complementando o papel do Estado de uma forma bastante efetiva. Esse é um debate que deve continuar mas nós da Unaids buscamos um ponto de contato positivo. O que nós queremos e esperamos é que a Igreja não bloqueie os programas como os do uso da camisinha, mas respeitamos as razões que tenham.
Corrêio do Brasil – vamos ver agora os países lusófonos da África, onde Moçambique é bem afetado.
Luiz Loures – Moçambique é o país mais afetado e na área mais afetada da África, com uma relação e proximidade muito grande da África do Sul. Eu pessoalmente acho que esses dois países, do ponto de vista técnico, não devem ser diferenciados no que se refere à epidemia, no cone sul da África, mesmo porque a doença não conhece fronteiras e existe cada vez mais imigração e circulação para a África do Sul. Angola, embora com índices mais baixos, é um país com grande mudanças do ponto de vista de desenvolvimento, da própria sociedade angolana depois da guerra, o que traz mais movimentos migratórios, mais possibilidades de sexo e com isso vem a Aids também.
Recentemente nós assinamos com a comunidade dos países de língua portuguesa um memorandum, um convênio de cooperação, exatamente no sentido de ampliar os programas dirigidos aos países lusófonos. Essa identidade cultural e linguística permite muita cooperação. No Brasil, o presidente Lula dá uma grande prioridade à cooperação com a África e nós da Unaids temos tentado triangular para facilitar ao máximo essa cooperação que pode ser uma grande vantagem em relação ao futuro. E há também um grande interêsse de Portugal em participar dessa cooperação. Nós achamos que isso pode criar uma nova dinâmica em relação aos lusófonos e temos investido muito nessa direção.
Os outros países lusófonos, Cabo Verde, St. Tomé e Príncipe, Guiné Bissau são bem menos afetados, como toda África do Oeste. Participam do programa da comunidade lusófona e esse o caminho que nos parece mais indicado para se levar a prevenção e o tratamento, num alto nível, a todos os países lusófonos.
Corrêio do Brasil – e o Brasil ?
Luiz Loures – O Brasil foi citado muitas vezes como exemplo no programa de sustentabilidade, do qual pude participar desde seu começo em 86. Ter um programa que vem se mantendo há 30 anos, efetivo e em desenvolvimento, é um ponto muito positivo para os brasileiros e acho que o governo deve ter orgulho de permanecer como exemplo ao nível mundial. Por ter sido o primeiro país a começar uma política de tratamento universal e gratuito, o Brasil enfrenta hoje uma situação muito particular. Na medida em que existem no Brasil pessoas em tratamento há muito tempo, existe a necessidade de drogas ou remédios mais novos, em consequência de uma evolução natural do tratamento da Aids, por questões de resistência e efeitos colaterais, levando o paciente a necessitar de uma mudança de remédios no seu tratamento.
Isso significa o acesso ao mercado de drogas mais novas com um preço muito elevado e quase proibitivo. Como num círculo, chegamos de novo aquele momento em que o Brasil negociou os preços e abriu perspectivas em todo o mundo de preços mais baixos, pois os novos remédios têm preços muito altos. Medicamentos que não estão disponíveis como genéricos. E o Brasil volta de novo a ficar na fronteira, como fazer que esses remédios sejam acessíveis e com preços abordáveis ? E é nesse sentido que falamos com o ministro Temporão, a fim de que nos ajude numa nova iniciativa de tratamento que chamamos de 2.0 ou a segunda geração do tratamento. E pedimos ao Brasil para nos ajudar na busca de soluções e como fazer para baixar os preços desses novos remédios. O Tratamento 2.0 quer também encontrar remédios que sejam menos tóxicos, de mais fácil administração e que possam ser usados por crianças.