Às vésperas dos preparativos dos jogos panamericanos, a baía de Guanabara surge como um grande desafio para a cidade do Rio de Janeiro. Os indicadores referentes às condições ecológicas da baía vêm ocupando, ao longo das últimas décadas, uma triste posição na escala dos grandes problemas ambientais no Brasil.
Ao lado do desmatamento amazônico, da destruição da Mata Atlântica, da diminuição do fluxo do rio São Francisco e do avanço da desertificação sobre as áreas do cerrado e do semi-árido, a baía de Guanabara se destaca como uma mácula que vem se perpetuando e ferindo a auto estima não só do carioca, mas de todo brasileiro.
São por demais conhecidas as causas da degradação da Guanabara: a falta de saneamento básico, o lixo, a favelização e a destruição dos manguesais. Também estão equacionadas as soluções técnicas. É na gestão das diversas esferas de poder que se encontram as maiores dificuldades. Porém, mais do que salvar um corpo hídrico agonizante, a baía de Guanabara merece ser protegida, principalmente, pelo seu valor simbólico.
O historiador inglês Simon Schama, em sua obra clássica, " Paisagem e Memória" revela como alguns espaços geográficos estão carregados de tradição. Para ele, o rio Tâmisa, recentemente despoluído, é como se fosse uma l9nha do tempo, que percorrido a contrapelo, remete aos primórdios da história inglesa do período celta.
A Guanabara ou "seio do mar", na língua dos tamoios, também se nos oferece como um espaço cheio de memória e história, que remonta ao descobrimento, às primeiras narrativas das visões do paraíso tropical no mundo europeu.
Nas margens da baía foi estabelecida a primeira feitoria de exploração de pau brasil, foram fundados os mais antigos engenhos de açúcar do Brasil. A Guanabara testemunhou as disputas entre portugueses e franceses pela posse do território. De seus portos mansos partia o ouro das Minas Gerais, de onde também aportavam os africanos escravizados.
As paisagens da baía inspiraram as pinturas de Leandro Joaquim, as famosas telas ovais, que ornavam as paredes do terraço construído sobre o mar, próximo ao primeiro jardim público do Brasil, uma obra de gênio mulato do Mestre Valentim. Desde então, a Guanabara se firmara como o cartão postal do Brasil. Os pintores da missão artística francesa e os fotógrafos que retrataram o Rio de Janeiro no final do século XIX também registraram o cenário idílico da baía.
Mas nem só de passado se nutre a tradição da baía de Guanabara, que também inspirou os versos modernos da bossa nova. O que dizer das curvas da arquitetura de Oscar Niemeyer sem associá-las à paisagem sinuosa da Guanabara? Ela está dentro de nós, introjetada no nosso inconsciente coletivo, na nossa identidade nacional. No momento em que a cidade se prepara para sediar os jogos panamericanos, a baía de Guanabara merece prioridade. Ela deve ser despoluída, protegida e reconhecida como um ícone da paisagem e da cultura do Rio de Janeiro e do Brasil.
Maria Eduarda Marques é historiadora e coordenadora do Centro Internacional de Desenvolvimento Sustentável da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getrulio Vargas
Baía de Guanabara - Ícone do Rio e do Brasil
Por Maria Eduarda Marques - Às vésperas dos preparativos dos jogos panamericanos, a baía de Guanabara surge como um grande desafio para a cidade do Rio de Janeiro. Os indicadores referentes às condições ecológicas da baía vêm ocupando, ao longo das últimas décadas, uma triste posição na escala dos grandes problemas ambientais no Brasil. (Leia Mais)
Quarta, 15 de Outubro de 2003 às 16:38, por: CdB