Por Rui Martins - O corpo do menino curdo sírio, afogado, de bruços na areia da praia, despertou os europeus para os migrantes, que tentam se abrigar na Europa.
Por Rui Martins, de Genebra, Suíça: A Alemanha vai receber 800 mil migrantes, nestes próximos mesesO corpo do menino curdo sírio, afogado, de bruços na areia da praia, devolvido pelo mar depois de naufragada uma precária embarcação , despertou os europeus e outras partes do mundo para os fluxos de migrantes, que tentam se abrigar na Europa fugindo de zonas de guerra.Sua vida foi extremamente curta, mas o menino Aylan Kurdi viverá para sempre como o símbolo alertador de um desastre humanitário. Os milhares de sírios hoje atravessando a Hungria e Áustria em direção à Alemanha e Suécia tiveram sua sorte decretada só depois do sacrifício de Aylan. Os mortos que vinham se acumulando aos milhares em tantos naufrágios, sufocados dentro de caminhões, mortos de fraqueza e de fome na tentativa de chegar ao abrigo europeu não tinham comovido a Europa a ponto de fazer cair suas muralhas.Mas de onde vêm essas vagas de seres humanos que nem sempre chegam à terra firme, exploradas por passadores e colocadas à força em barcos superlotados que se rompem, fazem água ou viram no meio do Mediterrâneo ? Da loucura dos homens, que pode ser a tentativa frustrada por estratégias políticas abortadas, ataques armados para se apropriar de recursos petrolíferos ou o desvario para implantar uma nova leitura literal corânica do islamismo tirânico dos séculos V e VI, numa versão tão cruel quanto as das cruzadas cristãs.Tudo começou quando a família Bush decidiu transformar o Iraque num grande investimento bélico, para se apossar de suas riquezas subterrâneas, destruir para reconstruir com empresas ocidentaiss e exportar o conceito americano de democracia. Essa aventura guerreira, baseada em dados incorretos fornecidos pela CIA e países vizinhos inimigos do Iraque, funcionaram como uma abertura da Caixa de Pandora, dela escapando todos os demônios possíveis.O Iraque laico de Sadam Hussein era uma panela de pressão, na qual se comprimiam curdos, sunitas, xiitas com comunistas ateus, numa precária convivência, mantida por um sistema ditatorial. Era um fator de equilíbrio que continha o Irã e impedia qualquer tipo de aventura religiosa expansionista. Ao destruir o Iraque, os Estados Unidos destruíram o equilíbrio no Oriente Médio, sem poder se apossar da região como pretendiam.Ainda estava fervendo o Iraque, quando o francês Sarkozy e o inglês Cameron decidiram, aproveitando-se dos rescaldos da primavera árabe, destruir a Líbia, sem terem aprendido a lição dos Bush com o Iraque. Liquidado Kadafi, o tirano do Mediterrâneo, a Líbia vive hoje o mesmo clima de desagregação vivido pelo Iraque. Extintos os últimos traços da teoria do panarabismo laico do egípcio Nasser e do líbio Kadafi, brotaram nas areias do deserto as lutas tribais e começa a se expandir pela África a versão guerreira corânica da guerra santa aos infiéis, transplantada do Oriente Médio.Como se não bastasse, aproveitando-se da eclosão da primavera árabe por democracia, já abafada e liquidada depois de sequestrada pela Irmandade Muçulmana, foi outro presidente francês, François Hollande, quem incentivou a revolta contra o presidente sírio Al Assad, sem perceber que essa nova frente seria uma nova Caixa de Pandora, uma espécie de extensão da frustrada aventura guerreira no Iraque e na Líbia, colocando em confronto velado a Arábia Saudita e o Irã, abrindo caminho para os fanáticos islamitas se apoderarem gradativamente do Iraque e entrarem na Síria com o mesmo objetivo de derrubar Al Assad. A tentativa de derrubar Al Assad, apoiada inicialmente pelos franceses e ocidentais, deu força suficiente aos islamitas para criarem seu próprio movimento guerreiro missionário, sua guerra santa, com o nome de Estado Islâmico com o objetivo de lançar no Oriente Médio a leitura literal do Corão de Maomé e, posteriormente, expandi-la nas repúblicas da federação russa e na Europa com a agregação às suas tropas de brigadas simbólicas estrangeiras, treinadas para levarem a guerra e atentados dentro da própria Europa e Rússia.Essa eclosão guerreira tem forçado milhões de sírios à fuga para a Europa, região mais próxima com estabilidade e paz. Como são milhões, a maioria dos países europeus decidiu erguer barreiras e mesmo muros, como o regime de extrema-direita húngaro, enquanto se reforçam nos países europeus os partidos de extrema-direita, favoráveis à expulsão dos estrangeiros já residentes e do bloqueio total aos estrangeiros vindos da costa mediterrânea africana ou do Oriente Médio.E do lado árabe existe alguma solidariedade aos sírios e iraquianos vítimas da guerra ? Não ! A colunista Clara Ferreira Alves, do jornal Expresso de Lisboa, é uma das únicas a perguntar se os irmãos árabes ricos do Golfo têm se preocupado em acolher e socorrer os irmãos sírios. Ora, diz ela, tanto o Qatar, como os Emirados Dubai e Abu Dhabi, a Arábia Saudita, o Koveite e o Baharain não acolheram ninguém – zero refugiado sírio recebido por esses países. E diz ela « são esses países sunitas que atiçam a guerra perante a nossa apatia ». E por que esses países não são pressionados para acolher refugiados ou por um fim à guerra ? Porque, lembra ela, os países europeus, os EUA e a Rússia estão batendo todos os recordes em termos de exportação de armamentos.Enquanto isso, a Alemanha, refazendo sua imagem depois de ter forçado a Grécia a se ajoelhar, está disposta, na contra-corrente européia, a receber 800 mil sírios. Uma liberalidade difícil de entender quando a Suíça, o país rico da Europa, fechou praticamente as fronteiras, exigindo hipocritamente dos candidatos ao refúgio que peguem antes um visto no país onde vivem, sem o que não serão recebidos nos Alpes. Não podemos deixar de louvar a abertura das fronteiras alemãs aos sírios, mas não se trata de uma simples dádiva generosa e sim de um rigoroso cálculo quanto ao futuro, bem no estilo da seriedade alemã: com a atual população onde os casais têm apenas 1,4 filho, a Alemanha não terá como pagar a aposentadoria dos seus cidadãos a partir do ano 2030 e não poderá manter seu crescimento e nem continuar como grande potência se baixar sua população. O quase milhão de migrantes sírios são bemvindos porque darão à Alemanha o que as maternidades têm negado, além disso são jovens na força da idade e com boa formação profissional.Mas eles não são cristãos! diz o presidente nacionalista húngaro de extrema-direita, visceralmente contra imigrantes e pela imigração com seleção religiosa. Porém, os rigorosos alemães já devem ter visto estatisticamente que não serão oitocentos mil sírios os responsáveis pela mudança de religião no país. E daqui a alguns séculos, na Europa, quem se importará ainda com essa história arcáica de religião ?Rui Martins, jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, pela recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e rádios RFI e Deutsche Welle. Editor doDireto da Redação.
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