Uma operação de emergência para evitar a morte de índios por doenças provocadas pela pobreza em uma reserva do Mato Grosso do Sul ainda não deu resultados, disseram autoridades de saúde e líderes indígenas, cobrando ajuda em longo prazo.
Pelo menos oito crianças morreram nas aldeias indígenas da região de Dourados neste ano, em geral de desnutrição, apesar da distribuição de cestas básicas e do envio de atendimento médico. A morte mais recente aconteceu no domingo.
O atendimento de emergência na reserva, onde vivem cerca de 11.500 pessoas, começou em meados de fevereiro, depois da divulgação de reportagens sobre as más condições do local.
As autoridades de saúde temem que aconteçam novas mortes caso o governo não atue rapidamente para ajudar os índios a plantarem lavouras, conseguirem combustível para cozinhar e combaterem a crônica superlotação das aldeias, que frequentemente levam ao alcoolismo e ao suicídio.
A Funasa (órgão do Ministério da Saúde encarregado do atendimento aos índios) diz que está conseguindo combater o problema, mas teme o surgimento de novas doenças, devido à seca e à safra ruim de 2004.
- A ação de emergência não basta - disse Gaspar Hickmann, diretor-regional da Funasa (Fundação Nacional de Saúde), que coordena a operação em uma casa em Dourados, uma próspera cidade agrícola do Mato Grosso do Sul.
- Isso tudo vai dar em nada se não houver mais apoio coordenado.
As autoridades até agora entregaram cestas com arroz, farinha e óleo, mas depois descobriram que muitos índios não têm gás ou lenha para cozinhar. Paradoxalmente, a reserva é cercada por uma das áreas mais produtivas do mundo em termos de grãos e pecuária.
A morte mais recente, no domingo, foi resultado de uma combinação de pneumonia, gastrenterite e infecções estomacais. Outras crianças morreram de problemas renais, diarréia e desidratação, na maioria das vezes decorrentes da desnutrição.
A população da reserva de Dourados explodiu na última década, levando a uma escassez de terras entre os índios guaranis, kaiowás e terenas. O fenômeno é parte do crescimento geral da população indígena no Brasil, que já supera os 700 mil indivíduos. Isso provoca pressões sobre as reservas e leva a conflitos por terras.
O governo federal já prometeu melhorar a coordenação, às vezes caótica, entre a Funai (Fundação Nacional do Índio), a Funasa, os ministérios e as autoridades locais. Os líderes indígenas de Dourados acusam a Funai de negligência e má administração.
- A Funai de Brasília manda dinheiro para cá, mas para onde esse dinheiro vai nós não sabemos - disse Luciano Dias, 50, que representa 5.000 guaranis e kaiowás da aldeia Bororó.
Sem verbas, a Funai vê a ampliação das reservas como uma solução de longo prazo para os índios do Mato Grosso do Sul. Mas, em seus primeiros dois anos, o governo Lula demarcou apenas uma área indígena no Estado. Outras 11 propostas estão paradas no Judiciário.
Por causa da falta de terras, a maioria dos índios da região de Dourados se vê obrigada a trabalhar nas lavouras de cana. Eles só voltam para as aldeias algumas semanas por ano, levando consigo o alcoolismo, a violência e as doenças sexualmente transmissíveis.