Justamente quando aprendeu a gostar de uma parte de seu corpo, a dramaturga Eve Ensler começou a odiar outra. E foi assim, contou a autora do sucesso internacional "Monólogos da Vagina", que ela acabou por escrever "The Good Body".
Na peça, Ensler fala diretamente à platéia sobre sua obsessão com sua barriga flácida. Ela também representa papéis que variam desde Isabella Rossellini até uma idosa queniana, passando por uma hispânica preocupada com o fato de engordar e uma italiana que se submete a mastectomia na esperança de evitar ser sexualmente abusada por um homem mais velho.
"Eu disse a palavra vagina, vagina, vagina um milhão de vezes", disse Ensler na nova peça. "Pensei que eu tinha chegado lá. Eu tinha finalmente aprendido a gostar de minha vagina. Até que, um dia, percebi que o desapreço por mim mesma tinha apenas subido um pouco, chegando à minha barriga."
"The Good Body" estreou recentemente na Broadway. Alguns críticos opinaram que a peça repisa temas já batidos, mas disseram que o faz de maneira a provocar risos.
"Muitíssimas mulheres têm problemas com seu corpo. Acho que isso não é algo que diminuiu -- na realidade, é algo que vem aumentando", disse Ensler em entrevista.
"Comecei a pensar nisso porque eu mesma tenho problemas com meu corpo. Eu me vi obcecada por esses problemas e surpresa por isso", contou a autora de 51 anos, conhecida como feminista acirrada que faz campanha contra a violência contra a mulher.
"Monólogos da Vagina", que busca romper tabus envolvendo as mulheres e o sexo, já foi apresentada em dezenas de países -- incluindo o Brasil -- e em pelo menos 35 línguas desde 1996, despertando o repúdio de conservadores e incorrendo em problemas com a censura na China.
Ensler pode ter captado uma tendência do momento com sua nova peça. "The Good Body" chega na esteira do documentário "Super Size Me -- A Dieta do Palhaço", sobre um homem que adoece e engorda depois de sobreviver por um mês à base de lanches do McDonald's, e semanas antes da estréia de uma nova peça intitulada "Fat Pig", sobre um homem que é ridicularizado por seus amigos por namorar uma mulher "de proporções generosas".
Ensler culpa a "tirania do capitalismo" por encorajar a obsessão com um "corpo bom", como maneira de vender produtos.
Através de encontros fictícios com mulheres de diversos países, na peça, Ensler acaba se dando conta de que existem no mundo coisas mais importantes do que se preocupar com sua barriga flácida. Ela acaba tomando sorvete com mulheres afegãs -- e conta que, sob o regime do hoje deposto Taliban, o sorvete era um prazer proibido.
Mas ela diz que para muitas ocidentais, mesmo aquelas que se sentem liberadas por décadas de feminismo, ainda resta uma sensação de prisão ligada à imagem corporal.
"Com o capitalismo consumista", diz ela, "os tipos de prisões criadas podem ser mais mentais, espirituais ou psicológicas, mas continuam a ser prisões."