Difuso, em princípio, começa a consolidar-se o movimento pela revogação da autonomia política e administrativa de Brasília. Os próprios cidadãos brasilienses, que a haviam saudado, dão-se conta de que caíram em uma armadilha do liberalismo político, e se articulam, para retornar ao bom senso. Pretendiam determinar o destino de sua cidade, mas se esqueceram que a cidade é patrimônio da Federação. Sendo assim, o que parecia ser movimento de descentralização política, tornou-se golpe pesado contra a Nação e contra a própria cidade.
Como todas as cidades, e mais que todas as outras em nosso País, Brasília é, ao mesmo tempo, urbs e civitas. Os problemas da urbe podem, e devem, ser resolvidos de acordo com seus moradores. Mas é do entendimento singelo que a urbe está subordinada à cidade, em seu sentido político, ou seja, à civitas. E uma cidade capital, em seu sentido político, está subordinada ao interesse geral do território a que serve. Como resolver o problema? Os norte-americanos o resolveram, de forma inteligente, ao atribuir relativa autonomia a Washington - que pode eleger o seu prefeito e seu conselho municipal, mas a representação no Parlamento nacional é relativa: dispõe de voz, e não de voto. A autonomia administrativa do prefeito e do parlamento municipal está sujeita à homologação ou ao veto de uma comissão do Congresso. Trata-se de pacto necessário e instrumental: admite-se a manifestação da vontade dos cidadãos que residem na capital, mas se preserva o direito nacional sobre o território. Da mesma forma, há comitês bilaterais, da União e da Municipalidade, que atuam em todos os setores da vida citadina, da educação à segurança pública. Foi mais ou menos assim que se administrou Brasília. No princípio, seu poder executivo era exercido por intermédio de prefeitos e, mais tarde, governadores, nomeados pelo presidente da República, e subordinados também a um comitê do Senado - o que era lógico. Em 1985, com a redemocratização, admitiu-se a eleição de senadores e deputados, mantendo-se a nomeação do governador pela Presidência da República.
Brasília, sob o atual regime, converteu-se em realidade esquizofrênica, para não dizer oligofrênica. O território se tornou um Estado de fato e de direito, apesar da dissimulação semântica. Em lugar de uma câmara de vereadores, como a de Washington e a do Rio de Janeiro, quando era capital da República, há uma câmara distrital, como se um peru pudesse ser denominado pavão. A sua representação nesse parlamento megalômano, criado em 1988, com as honradas e, em seu caso, reduzidas, exceções, se transformou em societas sceleris, que reúne presumidos assassinos de adolescentes; denunciados por crime de peculato; grileiros de terras públicas; pastores de seitas que exploram, abertamente, a credulidade pública; enfim, de pessoas que não sabem o que é Estado, o que é governo, o que é política, e, menos ainda, o que é comportamento moral. O pior é que, se examinarmos as leis propostas e aprovadas, a Câmara Distrital, cujos membros se intitulam deputados e dispõem de imunidades negadas a vereadores ( o que realmente são) não legisla para Brasília, mas contra Brasília: doa terras públicas a seitas de exploradores, deforma o plano original da cidade, autorizando transformação de áreas residenciais em áreas de comércio; autoriza a invasão de áreas públicas, altera o gabarito das construções - e só os ingênuos podem supor que o faz sem os emolientes da corrupção. O cúmulo foi a aprovação recente de lei que extingue o Conselho de Gestão da Área de Preservação de Brasília, órgão de controle do tombamento da Capital.
A autonomia de Brasília, tal como ela foi concebida e vem sendo exercida, é um acinte à Federação, qualquer que seja o seu governador. O problema não está no chefe do poder executivo, que pode ser mais atuante ou menos atuante, mais preocupado com a situação dos moradores das cidades satélites, ou mais preocupado com as elites das chamadas regiões nobres. Mais int