Rio de Janeiro, 28 de Abril de 2026

'Ausência de progresso é mau sinal' diz Mandelson na OMC

As conversas sobre o comércio mundial sofreram um revés nesta sexta-feira, com a troca de acusações entre as nações ricas a respeito de seus superprotegidos mercados agrícolas e sua dificuldade em obter um acordo sobre um pacote de medidas para ajudar os países mais pobres do mundo. (Leia Mais)

Sexta, 16 de Dezembro de 2005 às 10:33, por: CdB

As conversas sobre o comércio mundial sofreram um revés nesta sexta-feira, com a troca de acusações entre as nações ricas a respeito de seus superprotegidos mercados agrícolas e sua dificuldade em obter um acordo sobre um pacote de medidas para ajudar os países mais pobres do mundo.

- É difícil ver onde pode haver progresso em Hong Kong se as conversas continuarem na atual direção. O nível de aspiração (do que pode ser feito), se existe, está retrocedendo - disse o comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson, durante entrevista coletiva no quarto dia das conversas da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Hong Kong.

Apesar de haver ainda dois dias de negociações pela frente, autoridades dizem que a ausência de progresso é um mau sinal para o tão sonhado pacto de liberalização do comércio global em agricultura, bens industriais e serviços. Defensores do acordo dizem que a medida injetaria bilhões de dólares na economia mundial e tiraria milhões da condição de pobreza, mas seus opositores afirmam que isso significaria mais lucros para as nações ricas e as empresas às custas dos países pobres.

- Muitas autoridades têm dormido muito pouco, e tem um pessoal que já está ficando rabugento. Neste momento eu acho que você está vendo mais pose do que conteúdo - disse uma importante autoridade comercial dos EUA.

As expectativas já eram baixas em Hong Kong por causa de grandes controvérsias entres os membros da OMC, particularmente a respeito da recusa da UE em oferecer tarifas mais baixas na importação de bens agrícolas sem concessões de acesso a mercados de países em desenvolvimento.

Impasse

As nações ricas foram atacadas no encontro da sexta-feira quando um grupo de 27 países, incluindo o Brasil, a Austrália, a China e a Índia, alertou que a recusa em reduzir subsídios agrícolas e tarifas de importação poderia criar um impasse para o futuro. Autoridades comerciais dos EUA também sofreram críticas de países produtores de algodão do oeste da África por causa dos subsídios de 4 bilhões de dólares de que dispõem seus cotonicultores.

- O algodão é tudo para nós. Nós não temos mais nada no mercado mundial. Essa desgraça que estamos vivendo é porque o preço mundial está despencando... e a causa principal são os subsídios - disse o presidente da Associação Africana no Algodão, Ibrahim Malloum.

Um alto oficial da ONU para assistência alimentar juntou-se ao coro de críticas direcionadas a Bruxelas e Washington por causa de sua discussão se a ajuda humanitária deveria ser feita em alimentos ou em dinheiro.

- O que é vergonhoso e ultrajante é que 18 mil crianças morrem de fome todos os dias... Isso é que deveria ser motivo para controvérsia. Nós precisamos de mais comida e mais dinheiro - disse John Powell, diretor-executivo do Programa Mundial de Alimentos, a repórteres.

Autoridades disseram que tem havido intensas discussões a respeito de uma iniciativa, uma das poucas façanhas esperadas para Hong Kong, para garantir a eliminação de cotas e tarifas para as exportações dos 49 países mais pobres do mundo. O plano tem tropessado por causa da relutância dos EUA em oferecer livre acesso para bens como têxteis, açúcar e algodão, e da resistência do Japão em abrir seu mercado para as importações de arroz.

A UE, por sua parte, permanecia sob pressão para comprometer-se a eliminar os subsídios à exportação até 2010. Mas a Europa quer que EUA, Austrália, Canadá e Nova Zelândia concordem em reformar seus sistemas de exportação agrícola antes de eliminar seus próprios subsídios. E mostra ainda descontentamento com outras áreas das conversas, como bens industriais e serviços.

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