A Casa Branca responsabilizou nesta sexta-feira a CIA pela afirmação errada sobre o programa nuclear iraquiano, mas não conseguiu diminuir os cada vez mais fortes pedidos de demissões e uma investigação sobre o assunto.
Vários líderes do opositor Partido Democrata pediram nesta sexta a criação de uma comissão independente que averigúe o que se sabia de verdade sobre as armas de destruição em massa no Iraque antes da invasão. A organização MoveOn.org garantiu que já recolheu 190.000 assinaturas em um documento solicitando que o Congresso monte esta comissão.
Howard Dean, pré-candidato democrata às eleições presidenciais de 2004, foi mais longe e pediu demissões no Governo pelo uso de informação falsa para justificar a guerra.
As críticas também surgiram entre alguns membros do lado republicano. O senador John McCain, por exemplo, defendeu que "é necessário realizar uma investigação, encontrar quem é responsável por isso e demiti-lo".
A Casa Branca tentou desviar estas críticas e tanto o presidente George W. Bush como sua conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, anunciaram que os serviços de inteligência aprovaram integralmente o texto do discurso do Estado da União.
Neste pronunciamento, Bush denunciou que o Iraque tentou comprar urânio em Níger para fabricar bombas nucleares.
- Se a CIA e o diretor de Inteligência Central tivessem dito 'tira isso do discurso', nós o teríamos feito - disse Rice, que acompanha Bush em sua viagem pela África.
Aparentemente, os serviços de espionagem já tinham dúvidas sobre a veracidade desta alegação. De fato, no início de setembro de 2002, a CIA tentou convencer sem sucesso o Governo britânico a eliminar esta referência de um relatório oficial de inteligência, divulgou hoje o jornal The Washington Post.
Ainda assim, a acusação reapareceu mais de quatro meses depois no discurso sobre o Estado da União pronunciado em 28 de janeiro por Bush diante do Congresso.
Na segunda-feira, a Casa Branca reconheceu que a acusação se baseava em informação falsa e não deveria ter sido feita. A meia-culpa não foi suficiente, porém, para diminuir o volume das críticas, alimentadas também pela difícil situação no Iraque.
O Departamento da Defesa reconheceu esta semana que o custo de manter as tropas americanas nesse país chega a quase 4 bilhões de dólares por mês e terão de ficar no território por até quatro anos.
À perspectiva destas despesas astronômicas se unem os freqüentes ataques dos rebeldes, que mataram pelo menos 31 militares americanos desde que Bush declarou o fim dos combates de peso, em 1o de maio.
Os democratas viram nisto um ponto de fraqueza do presidente, num ano pré-eleitoral, e endureceram suas críticas. Propagandas começaram a ser veiculadas na TV, denunciando que o presidente falou de uma "ameaça iminente" em seu discurso de janeiro, com pleno conhecimento de que a informação era equivocada.
Outro pré-candidato democrata à presidência em 2004, o senador Joe Lieberman, afirmou nesta sexta em uma nota que "agora, sabemos que a informação no discurso sobre o Estado da União era falsa e (Bush) enganou o povo".
- Isto rompe o vínculo fundamental de confiança que devemos ter em nossos líderes em momentos de guerra e terrorismo - sentenciou.
Dean, ex-governador de Vermont e um dos políticos que mais se opuseram à intervenção, ressaltou que determinadas pessoas no Governo "enganaram o presidente, o país e o mundo ao justificar a guerra".
- Eles sabem quem são e deveriam demiti-los hoje - afirmou Dean, que não citou nomes.
A situação não é melhor para o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, que se reunirá na próxima quinta-feira com Bush em Washington para falar da situação no Iraque e sobre as armas de destruição ainda não encontradas em solo iraquiano, anunciou hoje a Casa Branca.
Rio de Janeiro, 10 de Agosto de 2026
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