Rio de Janeiro, 12 de Fevereiro de 2026

Atropelamento acelera discussão sobre motorista-cobrador

Quarta, 22 de Agosto de 2007 às 08:03, por: CdB

A dupla função que os motoristas estão exercendo nos ônibus micromaster, popularmente conhecidos como micrões, será discutida nesta quarta-feira, na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). A questão entrou na pauta de urgência do Sindicato dos Rodoviários após cinco ciclistas serem atropelados pelo ônibus da linha 734 (Rio das Pedras - Madureira), na manhã desta terça-feira, em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio. Três pessoas morreram.

Segundo testemunhas, o motorista se distraiu enquanto dava troco a um passageiro com o veículo em movimento. — Estamos há muito tempo denunciando isso (dupla função). Até nos ônibus convencionais eles estão obrigando o motorista a fazer a cobrança. Além disso, estão impedindo a entrada das pessoas que têm direito à gratuidade. Estão fazendo tudo de forma arbitrária e ilegal — disse o vice-presidente do sindicato, Oswaldo Garcia.

De acordo com ele, nos últimos dois anos, pelo menos sete mil cobradores perderam seus empregos com o acúmulo da função pelos motoristas. Garcia também afirma que as colisões com microônibus aumentaram, mas ainda não há estatísticas fechadas pela categoria. O sindicalista ainda contesta o uso da porta traseira para o desembarque dos passageiros. — Isso provoca acidentes, principalmente de idosos, porque o motorista não tem a visão necessária —.

 MPT abre investigação

O Ministério Público do Trabalho (MPT) no Rio de Janeiro abriu uma investigação, que já está em curso, sobre a dupla função do motorista. Para o procurador Patrick Maia Merísio, que investiga o caso, “a conduta é abusiva, pois viola a isonomia jurídica”. Segundo ele, o motorista-cobrador de microônibus tem remuneração menor do que o do ônibus convencional. O acúmulo da função, ainda segundo a investigação, é prejudicial para o trabalhador, pois aumentam os problemas de saúde do profissional e compromete a segurança do veículo.

Empresa rebate acusações

O relações públicas da Transportes Futuro Ltda., empresa que responde pela linha 734 da Viação Redentor, Júlio César de Lima Miguel, rebateu as acusações. — Ele não fazia cobrança porque o ônibus estava num ponto de desembarque. Além disso, eles são treinados para dar troco apenas quando o veículo estiver parado e com as portas fechadas — afirmou.

Ele negou ainda que a Redentor tenha feito demissões de cobradores. — O que fizemos foi um investimento para contratar novos motoristas para os microônibus —. 

Júlio César também contestou a hipótese de que o pneu teria estourado antes do atropelamento. — É uma especulação que já descartamos. O que causou o estouro foi o impacto do choque com as bicicletas —. Os resultados serão comprovados pela perícia, que ainda será feita.

Segundo ele, o motorista, que trabalha há dois anos na empresa, continua internado em estado de choque e sentindo muitas dores no peito. — Ele tem a ficha limpa — concluiu.

 Fetranspor: motorista-cobrador não tem contra-indicação

A Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor) divulgou nota em que afirma que lamenta o acidente, além de informar que nada leva a crer que o atropelamento "tenha se devido à função de cobrança que o motorista por ventura exercesse naquele momento".

A nota explica ainda que as empresas de transporte "orientam seus profissionais a manter os ônibus parados enquanto recebem o valor da passagem" e argumenta que tal acumulação de funções não tem "nenhuma contra-indicação" do ponto de vista "técnico e/ou legal".

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