Mães de Maio, que reúne parentes e amigos das vítimas, lançaram o livro “Do Luto à Luta – Mães de Maio”
13/05/2011
Aline Scarso
Mateus tinha ido a escola, mas não sabia que naquele dia não teria aula. Acabou assassinado, junto com o amigo Ricardo, por homens encapuzados. O trabalhador Rogério também não esperava que seria morto enquanto abastecia sua moto em Santos. Os tiros o acertaram, deixando seu holerite sujo de sangue. Era maio de 2006, e além deles, outros 490 civis morreriam aquele mês, 122 comprovadamente pelas mãos da polícia paulista. 352 tinham entre 11 a 24 anos. 19 cadáveres foram enterrados em vala coletiva.
Essas são histórias dos chamados Crimes de Maio, que neste mês completam cinco anos. Nessa quinta-feira (12), o movimento Mães de Maio, que reúne parentes e amigos das vítimas, lançou o livro “Do Luto à Luta – Mães de Maio”, trazendo o testemunho de familiares, contos e literatura da periferia sobre o episódio e análises do genocídio de pobres no Brasil.
Danilo Dara, historiador e um dos organizadores do livro, explica as motivações para a publicação. “O livro, em primeiro lugar, é uma desconstrução da mentira oficial do Estado e das elites. É uma voz direta das mães, familiares e amigos contando a verdade. O objetivo também é aprofundar essa dor por meio de críticas ao cotidiano brutal de violência e opressão que os pobres vivem, por meio de contos, literatura e análise”.
A primeira edição é restrita. Com os recursos disponíveis para a edição, foram tirados somente mil exemplares. Na sede do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, onde foi lançado, ativistas de direitos humanos faziam fila para comprar seu exemplar. Civis que foram perseguidos pelo Estado na ditadura militar também estavam lá, em apoio às vítimas da carnificina. Militantes do movimento negro, do Sarau Cooperifa e da Pastoral Operária também estavam presentes.
Como se proteger contra o extermínio?
Em todo o Brasil, estão se formando grupos de familiares de parentes assassinados pela polícia. Além de São Paulo, existem ações no Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais, Pará, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Elas lutam principalmente pela elucidação dos crimes, e tem que vencer primeira a classificação dada a maioria deles: “resistência seguida de morte”.
“O que é um eufemismo. Deve ser classificado como homicídio, como manda o Código Penal”, destaca o ouvidor da polícia, Luiz Gonzaga Dantas, que estava no ato. Segundo ele, a ouvidoria acompanhou mais de 200 casos dos Crimes de Maio, “e em 70,4% os casos foram arquivados por falta de identificação da autoria, ou seja, não se sabe quem matou vários meninos e meninas naquela época,” explica.
Os familiares também não puderam contar com o Ministério Público. Segundo o relatório “São Paulo sob achaque”, realizado pela ONG Justiça Glogal e pela Faculdade de Direito de Havard, o MP chegou a parabenizar os policiais pelos serviços prestados à época.
“A gente fez todo tipo de investigação que estava ao nosso alcance, mas nunca tivemos uma resposta do Ministério Público se estávamos no caminho certo. Descobrimos o porquê neste ano, pois segundo o relatório de Havard, a matança da polícia teve aplausos. O Ministério Público parabenizou a polícia por ter matado nossos filhos”, grita Débora Maria da Silva, arrancando aplausos dos presentes no ato.
“Lutamos por Justiça porque não houve Justiça. A morte desses meninos não foi apurada. Mesmo tendo a suspeita de que elas foram cometidas por policiais em grupos de extermínio, o Ministério Público arquivou os processos”, diz outro pai de filho assassinado, o agricultor João Inocêncio Correia de Freitas. “Até agora o reconhecimento dos nossos direitos a gente não teve. A gente só está lutando e a verdade ainda não apareceu.”
A Polícia é racista?
A cor da pele, as roupas, a presença de tatuagem e, principalmente, por serem moradores de periferia, tudo isso, segundo o movimento Mães de Maio, contribuiu para que a polícia assassinasse os jovens. Naquele mês, a periferia foi ainda mais criminalizada e a pena de morte instituída.
“Por várias vezes estava no bar com meu filho e a polícia chegava o intimando sem que ele estivesse devendo nada. Acho que ele já estava meio manjado pela polícia”, conta o trabalhador aposentado de limpeza urbana, Marcílio Roberto Soares. O filho dele, Tiago, foi assassinado em 14 de maio de 2006, enquanto estava numa lanhouse. “Ele estava no lugar e no dia errado, no dia em que estava acontecendo essa chacina toda. Poderia ser qualquer um”, afirma.
Seu João Inocêncio também é da mesma opinião. Para ele, parte da polícia que não serve para proteger a sociedade deveria ser eliminada da corporação. Militante do movimento, ele é pai de Mateus, morto em 17 de maio quando saia da escola estadual Padre Bartolomeu de Gusmão, no bairro do Saboó, na periferia de Santos.
Ser pobre não é crime e lutar também não é
“Eu vim aqui com o propósito de lançar oficialmente a campanha de recolhimento de assinaturas para indicar essas mães para receber o Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo”, conta o poeta, aposentado e militante de direitos humanos em São Vicente, Ademar Santos, à reportagem.
Ademar é autor do texto Lágrimas de Maio, que está no livro, e se preocupa com a segurança das famílias das vítimas. Para ele, o Prêmio é uma maneira de resguardá-las, colocando em evidência o trabalho contra a opressão da polícia e do Estado.
A imprensa, segundo o poeta, deveria fazer a mesma coisa. “O movimento delas tem que estar sempre na mídia, a população tem que saber que o movimento existe, e que as mães da periferia correm os mesmos riscos de terem os filhos assassinatos. Só assim, a polícia pode deixá-las em paz”.
Outras iniciativas também estão sendo tomadas com este fim. A tentativa de federalização dos crimes é uma delas. No entanto, não são descartados ajudas internacionais. Segundo Danilo Dara, “a Organização dos Estados Americanos (OEA) é mais recurso formal, que será acionado, caso a investigação sobre os crimes não avançarem na esfera estadual nem na federal”. Nesse caso, o Estado brasileiro pode ser processado por crimes de execução sumária e desaparecimento forçado.
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