Em comentário anterior afirmei que a invasão do Iraque não terá um balanço confiável, e que portanto ela não terá um fim no sentido próprio das guerras modernas. A semana que passou só veio confirmar o dito. A informação divulgada de que o primeiro ataque, no dia 20 de março, não passou de uma mascarada, com o propósito de lançar dúvidas sobre o paradeiro e a saúde de Saddam Hussein, caiu como um míssil sobre qualquer esperança dos invasores construírem uma fachada de credibilidade. O mesmo vale para as imagens do ataque (frustrado) dos mísseis de Saddam contra o quartel-general norte-americano e britânico no Kuwait, e que por pouco não acertou o alvo (enquanto isso os norte-americanos bombardeavam o mercado de Bagdá e pretendiam por a culpa nos iraquianos). A pressão sobre o mistério das armas químicas nunca encontradas também cresceu, e deixou patente a aura de descrédito que tudo isso envolve. Uma oração Mas se a guerra não terá um balanço, descobri um texto que a ela pode se aplicar como um atestado de óbito moral. Esse texto é de um escritor que, no começo do século XX, notabilizou-se por sua luta antiimperialista, atacando-o em todos os quadrantes e atacando também todas as suas origens, européias ou norte-americanas. Com um estilo particularmente irônico e até bem-humorado, este escritor muitas vezes desenvolvia seus textos atribuindo palavras aos próprios imperialistas - palavras que, ironicamente, os desmascaravam. Foi assim um seguidor do célebre discurso de Marco Antonio perante o cadáver de Júlio César, na peça homônima de Shakespeare, quando o futuro enamorado de Cleópatra, não podendo fazer elogios ao morto, diz mentiras sobre ele com tanta veemência que a verdade afinal transparece. Essas mentiras ele põe na boca de Brutus, seu inimigo, repetindo a fórmula: "Brutus diz isso, e Brutus é um homem honrado". Repete tanto isso que afinal o público entende que na verdade ele está acusando Brutus de mentir. Pois esse escritor escreveu uma "Oração da guerra", quando da invasão das Filipinas pelos Estados Unidos (1905), que a certa altura diz o seguinte: "Oh, Senhor, nosso Deus, ajudai-nos a rasgar a carne dos soldados inimigos em postas sangrentas com nossas bombas; ajudai-nos a cobrir seus campos alegres com as formas pálidas de seus patriotas mortos; permiti-nos abafar o trovão dos canhões com os feridos retorcendo-se de dor; ajudai-nos a destruir seus lares humildes com um furacão de fogo; ajudai-nos a arrancar com dor inútil o coração de viúvas inocentes; ajudai-nos a deixá-las sem lar a vagar, com trapos, fome e sede, na companhia dos filhos pequenos, abandonadas pelas ruínas de sua terra desolada, enfrentando o calor do sol de verão e os ventos gelados do inverno, o espírito abatido, exaustas de aflição, implorando a Vós o refúgio da tumba e vê-lo negado... por nós que Vos adoramos. Senhor, matai suas esperanças, estiolai suas vidas, prolongai sua amarga peregrinação, tornai pesados os seus passos, molhai com suas lágrimas o seu caminho, manchai a branca neve com o sangue de seus pés feridos! Imploramos a quem é o Espírito do amor, refúgio e amigo fiel de todos os que sofrem e buscam Sua ajuda com humildade e contrição. Atendei à nossa prece, oh, Senhor, e Vossas serão a gratidão, a honra e a glória por todos os séculos dos séculos, Amém".* Este escritor também escreveu isso, sobre o símbolo norte-americano mais conhecido além da bandeira: "Eu me recuso a aceitar que a águia crave suas garras em outras terras". Este escritor é o norte-americano Samuel Langhorne Clemens, nascido na cidade da Flórida, no Estado de Missouri, em 1835, que se tornou mais conhecido pelo pseudônimo de Mark Twain. Este texto, assim como outros de grande valia, encontra-se em "Patriotas e traidores: antiimperialismo, política e crítica social", uma coletânea de textos do autor de "As aventuras de Tom Sawyer" e o criador de Huckleberry Finn, publicada neste ano pela Editora Fundação Perseu Abramo. A tradução é de P
Atestado de óbito
Por Flávio Aguiar - Se a guerra não terá um balanço confiável, descobri um texto que a ela pode se aplicar como um atestado de óbito moral. Esse texto é de um escritor que, no começo do século XX, notabilizou-se por sua luta antiimperialista com ironia e até bom humor. (Leia Mais)
Quarta, 04 de Junho de 2003 às 18:15, por: CdB