A certa altura desta crise o presidente Lula disse que, se fosse preciso, se cortaria na própria carne. De certo modo isso já está acontecendo, com as mudanças na direção do partido e em certas atitudes, como a de se livrar da luxenta sede em Brasília. Mas só isso não é suficiente. Vai ser necessário cortar até o osso.
Não adianta substituir este ou aquele dirigente, A deixar o partido, B ser expulso e C perder força no comando. É preciso repactuar internamente o partido, repactuá-lo com a sua história, e repactuar o partido com o Brasil.
Também não se trata apenas de fazer uma troca da guarda, substituindo uma facção por outra. É hora de todas as facções, correntes, tendências e independentes se darem conta do tamanho do problema que foi acalentado e afinal explodiu, implodindo o brio da militância.
O partido - e é o partido, não apenas a sua atual direção ou a passada - não deve explicações apenas a mim ou à leitora ou o leitor que estão me lendo agora. O partido deve uma satisfação à gente como o professor Antonio Candido, o professor Ab'Saber, com Zilah Abramo e outros mais de igual quilate. O partido deve explicações ao catador de papel que atravessou Porto Alegre a pé, de bandeira em punho, com a mulher Jorçalda, para votar no "seu" partido, e partido da liberdade e da bandeira vermelha. O partido está diante da história brasileira e da esquerda mundial. O partido deve explicações à memória de gente como Graciliano Ramos e Erico Verissimo, aos marinheiros da Revolta da Chibata, aos sertanejos brasileiros de todos os massacres da nossa história, a Zumbi, a Anita Garibaldi e quantos e quantas mais.
O partido tem de dar uma satisfação ao povo brasileiro, aos povos latino-americanos, a todos os povos do mundo que ousaram erguer um pouco mais a cabeça e a espinha quando tiveram notícia de que a esquerda tinha ganho a presidência da República no Brasil. É a bravura desta gente que este emporcalhamento do Partido dos Trabalhadores está desossando, está desarticulando.
Pelo seu tamanho e por sua história o Brasil encarnou um perfil original da civilização e tem um destino a cumprir. A França teve sua Revolução, os Estados Unidos a sua Declaração da Independência, outros países tiveram seus outros momentos, até mesmo o sofrido e esmagado Haiti pelos imperialismos teve seu momento extraordinário de sediar a única revolta de escravos que já venceu seus opressores na história humana.
O Brasil tem movimentos sociais organizadíssimos; o MST é exemplo para o mundo inteiro; a CUT também é. O sindicalismo brasileiro está mais perto de suas raízes de base do que o da maioria dos países social-democratas, sem falar na desarticulação avassaladora que caiu sobre a extinta União Soviética e agora devasta também a China. O Brasil liderou experiências extraordinárias como a do orçamento participativo e por isso se tornou a sede do Fórum Social Mundial, reabrindo o futuro da humanidade e tornando-se o portal do século XXI.
Para os brasileiros que embarcaram nesta história dá orgulho andar pelo mundo e exibir o passaporte, tão admirado quanto aquele que Maiacovski mostrou no trem francês e que para espanto do fiscal era vermelho. Pois é este orgulho que o que aconteceu no Partido dos Trabalhadores, no seu coração, está trincando e achincalhando. E o que nos achincalha mais é ver o sorriso condescendente ou o riso de escárnio dos nossos inimigos no Parlamento ou fora dele, sobretudo fora dele, é ver gente escrevendo pela imprensa que o Brasil, no fundo, não tem jeito mesmo, que inglês sim é que pode se orgulhar do seu país.
O que é necessário, portanto, é reverter uma concepção política que, na prática, desistoricizou o Partido, cortou-o de sua memória, concebeu-o como um mero trampolim para o poder institucional e assim abriu espaço para quem quis vê-lo apenas como uma vereda de acesso às mordomias e favores anexos a este poder.
Há questões morais a resolver? Há. Há investig