A presidente da Associação dos Correspondentes Estrangeiros (ACE), Verônica Goyzueta, discordou da atitude do governo brasileiro em cancelar o visto temporário do jornalista Larry Rohter do The New York Times. Goyzueta,de origem peruana, é correspondente das publicações ABC Espanha e Tiempos Del Mundo, sendo este último um impresso americano em espanhol, que é veiculado em cidades latinas.
Em sua avaliação, foi uma decisão precipitada e, pior, fundamentada em uma legislação ultrapassada oriunda dos tempos da ditadura militar em que a título de combater a influência indesejada de pessoas de fora do País feria-se "a liberdade de imprensa". A sua expectativa é de que haja uma revisão da medida governamental porque o fato de "o correspondente ter demonstrado um comportamento parcial e apurado mal o conteúdo de seu trabalho jornalístico", resultou em um procedimento que está deixando os demais jornalistas estrangeiros preocupados.
A Associação decidiu divulgar a seguinte nota:
A Associação dos Correspondentes Estrangeiros (ACE), lamenta a decisão do governo brasileiro de cancelar o visto temporário do jornalista Larry Rohter, correspondente do The New York Times, no Rio de Janeiro, e espera que reconsidere essa retaliação que prejudica o direito de livre expressão da imprensa estrangeira no Brasil.A ACE não concorda com o conteúdo da matéria do Sr. Rohter, por considerar que foi tendenciosa.
Não concordamos, como correspondentes, com as afirmações de que o "hábito de beber" do presidente seja uma "preocupação nacional" nem de que "sua preferência por bebidas fortes" esteja afetando sua performance no cargo, como foi declarado no artigo.Consideramos também que as fontes ouvidas foram parciais e que a apuração da matéria foi incompleta.Estamos preocupados, no entanto, com a atitude desnecessária do governo de censurar um jornalista.
A ação contra o correspondente acabou dando a um artigo, que até então tinha pouca repercussão, uma amplitude que não merecia e criou uma nova polêmica que, agora sim, corre o mundo e ganha as manchetes da imprensa nacional.Nós, jornalistas da imprensa estrangeira, precisamos de nossos vistos para trabalharmos e esperamos poder exercer nossas funções sem o temor de que seremos censurados ou perseguidos caso escrevamos artigos que não sejam do agrado do governo. Neste sentido acreditamos que a ação contra Rohter cria um antecedente lamentável para a relação entre o governo e a imprensa, tanto nacional como estrangeira.
Não entendemos como um governo democrático que teve seus líderes perseguidos e censurados, toma uma decisão autoritária, logo com a imprensa estrangeira que, durante os anos do regime militar, levou muitas das denuncias feitas no Brasil contra a ditadura à opinião pública internacional. Foram, aliás, correspondentes da ACE, que em 1977 realizaram a primeira entrevista de repercussão internacional do então líder sindical e atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Sabemos do interesse do governo em tentar facilitar nosso trabalho, conforme foi comunicado durante uma reunião que tivemos em abril com duas assessoras de comunicação do Palácio do Planalto, por isso acreditamos que o governo admitirá sua falha e voltará atrás nesta decisão. (Associação dos Correspondentes Estrangeiros - ACE).