Enquanto as emissoras de televisão brasileiras, seguindo alógica da colonização mental, seguem mostrando, à exaustão, as feridas doatentado do 11 de setembro em Nova Iorque, nenhuma notícia é veiculada sobre omassacre cotidiano que acontece na pequena Honduras. O país da América Centralsofreu um golpe de estado em 2009, apoiado pelo governo estadunidense que nãoqueria ver o espaço que ele considera "seu quintal” entrar para órbita daAliança Bolivariana para as Américas (ALBA), liderada por Hugo Chávez. Hoje,dois anos depois, comandadas por um governo títere, as mesmas forças golpistasseguem ceifando vidas dos lutadores sociais, sindicalistas, jornalistas,comunicadores populares e pessoas comuns que decidiram resistir contra o golpe.
Isso mostra que o golpe em Honduras, na verdade, continua emcurso, mesmo depois da saída de cena dos militares e das eleições que levaramao poder um novo presidente, Pepe Lobo. Até porque, a consulta popular contoucom uma abstenção gigante e não teve qualquer candidato de esquerda. É que apopulação hondurenha, que foi às ruas dia após dia, durante o governo dosmilitares, não engoliu a "democracia” tutelada pelos golpistas. Até hoje o novopresidente não é reconhecido pelas gentes. A resistência popular insiste navolta de Mel Zelaya, no retorno a uma verdadeira democracia, sem a mordaça doregime militar, e sem a violência assassina que segue sem trégua.
Todos os dias somos informados de mais uma morte, como se ogoverno tivesse fotografado cada rosto nas passeatas, nas mobilizações, nosatos, e agora os caçasse. Um a um, os militantes vão caindo sob as balas ou sobestranhos acidentes como o que matou o conhecido cantautor José DanielGonzáles, conhecido como Jerônimo, de 57 anos, que fez de suas canções páginasde resistência. Ele foi atropelado em julho desse ano por alguém que fugiu enunca mais foi encontrado.
Outro conhecido militante da resistência, abatido a tiros emsua própria casa nesse mês de setembro, foi o ativista Emo Sadloo, denacionalidade suriname, mas vivendo há mais de 30 anos em Honduras. Emo foiatingido por cinco tiros, quatro no peito e um na cabeça. Ele era muito popularentre os resistentes, liderando muitas das marchas realizadas ao longo dosmovimentos pelo fim da ditadura. Desde aí, a mídia hondurenha – apoiadora dogolpe - vinha fazendo dura campanha pela deportação de Emo, acusando-o de "atosanárquicos” e etiquetando-o como "estrangeiro”. Só que além de levar 35 anosvivendo em Honduras, ser naturalizado legalmente, Emo tem dez filhoshondurenhos e, na luta, sempre se assumiu como hondurenho, na defesa daliberdade para ele e os seus. Agora, não há mais o risco de deportação porque ocarismático ativista já está a sete palmos, sem que seus assassinos sejamconhecidos.
Um dia depois da morte brutal de Emo, também foiassassinado, na cidade de Puerto Cortés, norte de Honduras, o comunicadorMedardo Flores, membro ativo da Frente Ampla de Resistência Popular (FARP).Assim como ele, outros radialistas e jornalistas seguem sendo perseguidos ecaçados, até que tombam crivados de balas em algum beco escuro. Com a sua mortesomam-se já 15 assassinatos só de jornalistas. Isso sem contar os desaparecidosque chegam ao número de 10, só nesse ano. É o que o jornalista hondurenhoRonnie Huete chama de "carniceria humana”.
Ninguém precisa ser muito inteligente para observar quetodas essas mortes, acontecidas de maneira violenta ou simulando acidentes, sãoabsolutamente encomendadas. Todos os mortos tiveram participação ativa nasmobilizações da resistência e continuavam a atuar na luta por uma Hondurassoberana e democrática. Mas, as milícias paramilitares e os esquadrões da morteque se formaram no país, sob as vistas grossas do governo, seguem agindo sempejo, à luz do dia, sem que o Estado tome qualquer atitude. O que é óbvio,visto que os assassinatos parecem emanar do poder constituído.
Da mesma forma que o Estado, a comunidade internacionaltambém parece ter abandonado à própria sorte a população hondurenha que segueem luta. Com as eleições ao final do ano de 2009, mesmo não sendo as mesmasreconhecidas pelos hondurenhos, Honduras deixou de ser um foco de cuidado enotícias. Esquecidos pelos órgãos de direitos humanos e pela mídiainternacional as pessoas que atuaram e atuam na resistência são alvos contínuosdos assassinos de aluguel e de seqüestradores, identificados – esses sim – comoestrangeiros, ou como agentes do governo, uma vez que seguem toda uma logísticaoficial, embora não se vistam como força policial. Ao que parece, o governo nãoquer deixar vivo nenhuma pessoa que tenha tido participação firme naresistência. São mortes anunciadas e nada é feito para proteger a população. Oterror é pílula diária no país, buscando calar pela força das armas o desejo deliberdade.
Assim, enquanto em todo o mundo se chora a dor dosestadunidenses – que lembram os 10 anos de uma de suas tragédias – esquece-sedeste terrorismo cotidiano, perpetrado pelos aliados do governo estadunidense,porque, afinal, qual é o valor da lágrima de uma mulher hondurenha, comparada ade uma moradora de Manhattan?
De qualquer forma, com todas estas ameaças e violênciasreais, o povo hondurenho segue lutando. Jornalistas seguem falando, militantescontinuam promovendo marchas e protestos. E, ainda que esquecidas pela mídiacomercial, aliada impassível do poder, as gentes e as vítimas do governo dePepe Lobo são lembradas e narradas pela imprensa popular, pelos movimentos sociais,os blogues e toda a sorte de outros meios de comunicação que tomam o mundo. Ogrito de liberdade que ecoa desde a pátria de Morazán chega até nós e oreproduzimos como um eco teimoso e insistente. Em Honduras, os lutadores estãomorrendo, assassinados pelo Estado, mas, para cada um que cai, centenas selevantam... Não há força capaz de barrar o sonho da pátria livre.