Com constância fala-se, na imprensa, nas derrotas humilhantes que o governo sofre. Entretanto, há um aspecto curioso: é freqüente também não haver vencedores que assim se proclamem. Aparentemente ninguém ganha: só o governo perde. É de geral conhecimento as atrapalhações do governo Lula em sua base e atuação parlamentares. O governo vem de várias derrotas e situações difíceis tanto na Câmara quanto no Senado. Com constância fala-se na imprensa, sobretudo escrita, nas "derrotas humilhantes" que o governo sofre.
Entretanto há um aspecto curioso: é freqüente também não haver vencedores que assim se proclamem ou sejam proclamados. Aparentemente ninguém ganha: só o governo perde. Ou então, quando ganha, desaparece numa expressão genérica, como a de que a eleição do deputado Severino Cavalcanti foi uma "derrota humilhante" para o governo e uma vitória do "baixo clero".
Convenhamos, não foi nada disto: quem fabricou a vitória do deputado Severino foi o consentimento ou adesão do PSDB e do PFL, sobretudo, para romper o consenso republicano de que o partido de mais peso na casa aponta o presidente da mesa. Entretanto neste domingo, 8 de maio, reportagem de Kennedy Alencar na Folha de S. Paulo lança alguma luz sobre "cui prodest" - quem lucra - com essas tais de "derrotas humilhantes".
Diz a reportagem de uma reunião entre o deputado Severino e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em que se fechou acordo para impor derrotas a Lula no Congresso. E ainda assinala o trabalho de Cardoso para impedir que o PSDB apoiasse a candidatura de Luiz Eduardo Greenhalgh à presidência da mesa da Câmara Federal. No correr da semana, tanto Cavalcanti quando Cardoso negaram evasivamente a afirmação, mas ficou o cheiro de queimado.
A reportagem de Alencar no domingo vai mais longe ainda ao detalhar, segundo o relato de membros do PP, partido de Severino, como os tucanos, "inclusive FHC", monitoraram a atuação do presidente da Câmara nos casos da cassação do deputado André Luiz (ex-PMDB, Rio de Janeiro) e arquivamento de um pedido de sindicância contra o presidente do PP, deputado Pedro Corrêa ( Pernambuco).
A eleição do deputado Severino Cavalcanti, do modo como se processou e com o seu currículo e suas declarações posteriores, foi humilhante nãoapenas para o governo, mas para a Câmara Federal, que saiu rebaixada do episódio. Quer dizer, traduzida em seu verdadeiro significado, foi uma "vitória humilhante" para PSDB e PFL que a produziram, sem querer pagar a conta quando apresentada.
Valem-se eles do relativo ocultamento da sua atuação, de seus próceres, e de suas responsabilidades em sucessivas baixarias ou acontecimentos que provocam absoluta perplexidade, como a de se eleger para o Conselho Nacional de Justiça um secretário (de Justiça) do Governador Alckmin, de São Paulo, que também é presidente da Febem e cuja atuação à frente deste órgão vem sendo diariamente exibida pelo noticiário das sucessivas rebeliões de jovens, como desastrosa.
Episódios como esse e outros levantam a pergunta: por que Lula e seu governo, se no fim de contas tanto aderiram ao receituário econômico conservador, continuam sendo indigestos para as classes dirigentes no Brasil? Bom, daria para se dizer, trata-se de uma disputa de bandas e bandos idênticos nos fundamentos, como as que opõem a maioria de republicanos e democratas nos Estados Unidos. Mas isso não explica tudo, pois não explica o tom de chacota, de maledicência, de ódio mesmo que por vezes se manifesta no repúdio ao governo do PT.
A política externa é uma das razões, inclusive a de seu sucesso. Estão nossas classes dirigentes acostumadas à idéia de que nossa política externa deva ser posta prioritariamente a serviço de garantir as benesses das agências financeiras internacionais, dominadoras da recente hegemonia globalizante que por ora entrou em crise ideológica. Também nossa política não deve ser cópia servil da no