Pouco antes do início das atividades do Fórum Social Mundial de 2006, etapa Caracas, a principal via de acesso do aeroporto de Maiquetía a Caracas bateu as botas. A interdição do viaduto de número 1 na estrada Caracas-La Guaira ajuda a entender um pouco a tensão social no país. O problema no viaduto é resultado de um descuido histórico com investimentos em infra-estrutura. Porém, a via alternativa para se chegar à cidade, conhecida como "estrada velha", é um caminho importante para entender a natureza do governo Chávez e, claro, de sua oposição, que saiu às ricas ruas do leste de Caracas, no domingo, aproveitando a presença expressiva de jornalistas estrangeiros na capital da Venezuela.
Estamos nas vésperas de mais uma edição do maior encontro mundial das esquerdas, que promete muita tensão, interna e externa. No interior do próprio FSM, os movimentos que o organizam estão tensionados sobre a urgência, ou não, de partir para uma agenda global antiimperialista, que encontra resistências importantes, principalmente entre algumas Ongs. Na cidade de Caracas, a tensão é protagonizada pela oposição a Chávez, que se dedicou, neste domingo, a disputar a vitrine midiática internacional já à disposição, enquanto o Fórum não começa. A passagem pela estrada velha ajuda a compreender não só as reivindicações da oposição a Chávez, mas sobretudo o que elas interditam.
A lista das interdições é vasta, a começar pela reiterada recusa da oposição em participar dos processos eleitorais no país, desde sua derrota no referendo de agosto de 2004. A reivindicação pela mudança no Conselho Nacional Eleitoral, antes da próxima eleição para presidente, em dezembro de 2006, é a expressão robusta da mais eloqüente das interdições, que a passagem pela estrada velha mostra. Passam-se horas dobrando curvas, subindo morros que muito se parecem com as favelas no Brasil, da Rocinha ao Alto Zé do Pinho, no Rio e no Recife. Pobreza, amontoamento das habitações, sujeira. Ao se chegar na capital, o cenário não muda muito, começando pela sujeira nas ruas. A estrada velha, como o nome indica, não é uma criação de Chávez, mas as escolhas de seu governo, nessa direção, explicitam a natureza da recusa hoje vista nas ruas do leste de Caracas.
Mesmo sem Chávez ter expropriado um clip de papel, os brados anticomunistas se podiam ouvir da fila para o bilhete do metrô às ruas dos bairros ricos e nada charmosos, da capital. A raiva e a agressividade são tamanhas que poderiam confundir a respeito das intenções de defesa da democracia presentes na marcha da oposição. Algumas curiosas bandeiras venezuelanas ostentadas como diante de uma batalha épica, porém, ajudam a dirimir qualquer confusão. Começando por uma mulher, fantasiada da estátua da liberdade americana, com as cores da Venezuela, que denunciava o fim das instituições e a falta de democracia, aos gritos, desfilando seu figurino "libertário" pela rua e para as câmeras. Adiante, alguns passos depois, uma senhora de uns 70 anos mostra a sua bandeira venezuelana, nas cores azul, vermelho e amarelo, respectivamente representados por um paletó, um lenço tipo gravata e um reluzente e pesado colar de ouro. Bandeiras cuja nitidez pretende competir ferozmente com a pobreza e as políticas sociais do governo, nas regiões pobres, como as que circundam a estrada velha...
É uma competição feroz, que conta com o apoio explícito dos Estados Unidos, através de algumas organizações, cujas agendas comportam um conjunto de interdições. Uma dessas organizações é a SÚMATE, que se define como empenhada no fomento da liberdade individual e da expressão do livre pensamento, que foi uma das responsáveis pela marcha da oposição. Só para esse ato, ela contou, como admitiu com tranqüilidade sua jovem líder Maria Corina Machado, com 35 mil dólares do governo americano.
Entre os outros fomentos dessa importante organização literalmente terceirizada, cuja líder se apresenta como alternativa às figuras desgastadas